segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Buli no médico

Nota inicial: Por que raios iria eu ao médico?? Leitores mais preocupados, não se preocupem. Fui fazer o exame médico desportivo, obrigatório para competir em provas oficiais como atleta federado.


Médico: Treina todos os dias?

Eu: Sim, praticamente.

Bidiários?

Às vezes. Como faço pentatlo e triatlo, há dias em que treino corrida e natação, ou corrida e ciclismo...
[Lembrando que o médico foi maratonista] Agora estou a treinar para a maratona de Tóquio, onde quero bater o meu recorde na distância.

Ah, sim? Que tempo quer fazer?

Abaixo das 2h50min.

Ah... [médico com cara de isso-não-é-assim-nada-de-especial]
Quantos quilómetros treina por semana?

Uns 100.

Então e não consegue treinar mais? Uns 120?

Pois... [A pensar que 100 km já é muito!]

E a que velocidade corre?

Pelos 4'30"/km, com uns fartleks de vez em quando.

E não consegue correr mais rápido?

Talvez uns 4'15"-4'20"/km?

Se eu voltasse atrás sabendo o que sei hoje, não correria tanto como corri. Fazíamos mais de 200 km por semana, parecia que andávamos a competir a ver quem fazia mais quilómetros. Podia ter corrido menos e mais rápido, com iguais ou melhores resultados e com menos lesões.



foto de 1979 encontrada aqui (quem é o atleta à esquerda do médico??)




PS: Obrigado, Renato, pelos conselhos e pelos óptimos argumentos para responder quando me dizem "Tu vê lá, não te estiques..." :)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Singapura by night

O que é que um corredor diz para o outro às 3:30 da manhã?


Ontem à noite estava a ficar entusiasmadíssimo com a perspectiva de viajar para Portugal hoje. Depois de jantar e fazer as malas decidi que ainda precisava fazer algumas coisas (no computador... esta máquina de produtividade – e muitas vezes de distracção – na era da informação, que consegue manter-me acordado bem para além da minha resistência habitual não estimulada).

Por volta das duas da manhã estava pronto para ir dormir. A ideia de dormir poucas horas para ir apanhar o voo das 9 da manhã não me incomodava muito. Mas acordar às quatro da manhã para correr para cumprir o plano de treinos começava a soar doloroso. Considerei as minhas opções
1. Dormir 2 horas e acordar às 4 para ir correr
2. Correr agora, deitar-me às 4 e dormir 2 horas
3. Deitar-me já, dormir 4 horas e não correr (Não... um corredor aplicado como eu nem sequer coloca estas possibilidades, que é para não começar a racionalizar por que é que na verdade é muito boa ideia ter mais um dia de descanso. Além disso, qualquer uma das opções 1 ou 2 seria coerente com a minha experiência de já ter corrido a qualquer uma das 24 horas do dia. Para um corredor aplicado não existem desculpas de que é tarde ou cedo demais; ou está a chover, a nevar ou a passar um tornado; ou quente ou frio demais; ou...)

De repente a opção 2 começou a soar excelente. Muito melhor do que acordar às 4 com uma ganda moca e arrastar-me no treino. O sono começou a dissipar-se e um fluxo de uma qualquer endorfina energizante percorreu o corpo. Butes lá correr!


2:30 Holland Road

Acabei por sair de casa às 2:30. Logo à saída do prédio vinha um vizinho a acabar de passear o cão (gente estranha, a fazer estas coisas a esta hora da madrugada!).

Ruas bastante desertas e – o melhor de tudo – muito pouco trânsito. Senti logo uma frescura (para os padrões de Singapura, certamente estavam 20 e muitos graus e humidade a 70 ou 80%, como de costume), parte devido à hora e parte devido à chuva que tinha caído a tarde toda. Hmmm... existem várias vantagens em correr a estas horas!

Segui pela Holland Road a caminho do centro da cidade, sem um percurso muito definido mas com intenção de ir até algum ponto do centro financeiro e voltar. O plano era correr 90 minutos (uns 20 km), num fartlek (treino de variações de velocidade) de 7’30” médios (ou seja, algo rápidos, próximo dos 15 km/h) e 7’30” lentos.

Nos habituais 15 minutos passei pelo portão dos Jardins Botânicos, para onde nem olhei porque estaria certamente fechado. Mesmo que estivesse aberto, estaria provavelmente muito pouco iluminado e, além de não conseguir ver o tempo no relógio para mudar de ritmo a cada 7’30” (acho que o relógio não tem iluminação...), havia o risco de pisar algum degrau ou objecto e torcer um pé.


2:50 Orchard Road

Entrei na Orchard Road no ritmo rápido. Passei no ponto de encontro habitual do Banana Prata Triathlon Club para as nossas madrugadoras voltas à ilha e ainda pensei que seria engraçado encontrar algum ciclista por ali. Mas além de ser cedo demais (nunca combinármos nada antes das 4:55 da manhã), a maior parte dos meus colegas de clube estão estes dias em Busselton, na Austrália, onde no domingo farão um Ironman.

Logo a seguir passei pelas Orchard Towers, onde a animação nocturna parece ser sempre garantida. Raparigas desfilando as suas curvas com saias minimalistas, decotes generosos, camisas semi-transparentes revelando a roupa interior, saltos altos de uns 15 cm. Vergonhosamente para um homem (macho, não no sentido neutro de “membro da humanidade”) que já viveu um total de 3 anos em Singapura, não sei exactamente o que se passa nas Orchard Towers. Parece que há lá um bar ou discoteca (ou vários) onde as vendedoras de serviços sexuais são particularmente assertivas. Deveria ir lá um dia destes investigar (e levar a Sílvia comigo, para ver se ela me protege da agressividade feminina!). O que eu vejo é, lá em baixo, à porta do prédio algumas delas e imagino que seus clientes ou potenciais clientes. Estranhas razões para andar na rua àquelas horas, ou nem tanto?

Segui pela Orchard Road fora passando pelos milhentos centros comerciais, todos fechados como seria de esperar. De vez em quando cruzando-me com grupos de 2 ou 3 pessoas... a passear? Gente estranha...


3:15 Marina Bay

Seguiu-se a Singapore Management University, Chjimes (antigo convento tornado bloco de bares e restaurantes), Swissotel (onde se realizou há dias a outra maratona vertical de Singapura), Esplanade, Floating Platform, Marina.

Atravessei a ponte helicoidal para o complexo do casino... ahn... perdão, resort integrado. As obras (que ainda vão durar uns bons meses, apesar de o cas... resort ter sido inaugurado em Junho) estavam em grande actividade. Nada como mão de obra estrangeira, barata e com muito poucos direitos para se sacrificar pelo desenvolvimento económico do país... Nem seria tão desumano se ao menos aquele pessoal tivesse a opção de escolher horários de trabalho e fosse pago extra por trabalhar a horas menos naturais. Duvido que isso aconteça.



As obras obrigaram-me a entrar no edifício (da zona de lojas, não das mesas de jogo, que nem sei bem onde ficam), aproveitando por menos de 1 minuto o refrescante ar condicionado. Estava exactamente a meio dos 90 minutos planeados, e pelas minhas estimativas chegaria a casa em 45 minutos.

Ali junto à baía passei por alguém com ar de sem-abrigo a dormitar – uma visão muito incomum em Singapura – mas ia no modo rápido (além de que estava escuro e eu cansado) e não deu para avaliar bem.

Raffles Place, centro do centro financeiro de Singapura, hotel Fullerton, Museu das Civilizações Asiáticas... Era só seguir junto ao rio por uns kms e ver se restava alguma acção na vida nocturna daquela área.


3:30 Clarke Quay

Cheguei a Clarke Quay, passando ao lado do bungee jumping invertido (uma espécie de fisga que dispara uma cápsula com três passageiros apreciadores de acelerações a ponto de pagarem pela experiência) e entrei na zona de restaurantes, bares e discos.

Foi ali que me cruzei com o único outro corredor da noite. Levantei a mão para dizer “Hi”, “Olá”, “Oi”, “Ugh” ou algum outro cumprimento semelhante e ele respondeu “Good morning!”. Fiquei a pensar “Mas é good morning ou good night?? Até agora teria pensado que era claramente good night... Será que o tipo já dormiu e acordou muuuuito cedo para correr??” Há gente muito estranha: que raio de horas para acordar para ir correr!

Alguns bares ou discos ainda funcionavam, mas estava tudo bastante morto. Passei por vários grupos com ar de se estarem a despedir, vários aparentando serem os funcionários do estabelecimento que acabava de fechar. Vidas diferentes... Eu a olhar para eles e eles a olharem para mim.

Um par de kms mais à frente, em Robertson Quay, já longe dos bares e restaurantes, três raparigas vestidas de night conversavam tranquilamente. Provavelmente reclamavam dos namorados , da falta deles, ou da noite sem sucesso no engate ali ao lado no Zouk (discoteca famosa já em 2003 quando fiz o meu MBA aqui em Singapura; depois de ouvir os meus amigos a falarem dela o ano todo, acabei por ir lá ver o que tinha de tão especial no final do ano lectivo – pareceu-me uma disco como outra qualquer; ou seja, bastante desinteressante para mim).

Pouco depois entrei na Alexandra Road, já a sentir-me a chegar a casa. Faltavam só mais 7’30” médios! Ao longe, apesar do cérebro cansado e do escuro da noite naquela zona menos iluminada, avistei alguém vindo na minha direcção empurrando um carrinho. Noutra cidade qualquer teria pensado que seria um sem-abrigo empurrando todos os seus pertences. Mas em Singapura...? Fomo-nos aproximando e o carrinho foi se revelando um carrinho de bebé. E a pessoa uma mulher, ou mais precisamente uma mãe. E o carrinho levava realmente um bebé! Às 3:40 da manhã?? Gente estranha... Será que a rapariga (de aparência “ocidental”) tinha vindo recentemente de longe e estava com um sério jet lag? Ou o bebé estava imparável e a única forma de o acalmar tinha sido sair para um passeio?

Entrei nos últimos 7’30” médios já a sentir-me em casa.


4:00 Casa

Cheguei! Ah! Cansado e quente, totalmente ensopado em suor. Muito bom! Ainda bem que decidi correr antes de dormir. Fiquei cheio de energia! Nada como, depois dos exercícios de flexibilidade, um bom duche frio para baixar a temperatura do corpo e dormir!

Talvez faça isto mais vezes. Tempo mais fresco, ruas vazias, e aqui e ali umas estranhas criaturas da noite. Melhor que o Night Safari!?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A economia do lixo

Os imparáveis Free Range Studios ("criatividade com consciência") lançaram mais um vídeo da colecção The Story of Stuff: The Story of Electronics.


É muito verdade que os produtos e preços estão feitos para durar pouco e serem deitados fora e substituídos pelo último lançamento... E também que o preço de tantos produtos electrónicos é tão baixo que muita gente pensa facilmente em comprar só porque pode comprar. Há 20 anos comprar um computador era um acontecimento especial, um forte investimento muito ponderado e só realizado quando "mesmo necessário" (seja isso o que for). O computador em que escrevo custou pouco mais de 250 Euros há 2 anos. Gostaria que ele durasse muitos anos, pois funciona bem e faz o que preciso. Mas estou consciente de que um pequeno percalço no funcionamento, uma peça que deixe de funcionar, facilmente tornará mais barato comprar um novo do que reparar este. É muito difícil não entrar no jogo.

Como é que um computador pode ser tão barato? Como a Annie Leonard (a rapariga no vídeo) comenta, muito provavelmente devido às externalidades negativas que não estão precificadas. Ao pagar pelo produto não estamos a pagar pela poluição causada, pelos direitos humanos desrespeitados, pelos estragos na saúde de quem contacta com produtos tóxicos na produção, transporte, utilização, reciclagem ou decomposição do produto...


Responsabilidade

E que tenho eu a ver com tudo isto? Se as coisas são baratas então toca a aproveitar! Como já comentado nas bulicenas: O meu consumo é o motor de uma cadeia montada para satisfazer as minhas “necessidades”. Cada compra é um voto a favor dessa cadeia e de tudo o que a envolve. Cada compra representa a minha assinatura, em papel azul de 25 linhas e reconhecida em cartório, aprovando tudo o que se passa ao longo da cadeia produtiva. Será que consigo ficar de consciência tranquila com as aprovações que faço todos os dias?

A Annie propõe que os fabricantes de electrónicos sejam responsabilizados pelo ciclo de vida completo dos aparelhos que vendem. Ou seja, quando se tornam obsoletos, os aparelhos deveriam ser devolvidos à origem, para eles tratarem da reutilização, reciclagem, o que seja. Isto incentivaria as marcas e fabricantes (hoje em dia raramente são a mesma entidade: a Apple*, por exemplo, que eu saiba não fabrica nada - desenha e mandar produzir os seus produtos em algum lugar barato, tipicamente na Ásia, e depois gasta brutalidades em marketing para nos convencer de que estamos mesmo a precisar do novo iCoisa) a optimizarem os seus produtos para talvez durarem mais, serem mais reutilizáveis, mais recicláveis, possivelmente mais compatíveis uns com os outros... E naturalmente tornaria os produtos mais caros (porque as tais externalidades seriam internalizadas - o preço incluiria uma maior quantidade de efeitos no mundo), e portanto nós compraríamos menos e haveria menos lixo a circular no mundo.

Num texto do blog Transforming Cultures do Worldwatch Institute o autor sugere que comecemos já a responsabilizar os CEOs/presidentes das empresas a quem compramos os nossos electrónicos. Ele até publica as (segundo ele verdadeiras) moradas do Steve Jobs (da Apple) e do Michael Dell (da Dell) para podermos começar a enviar-lhes o nosso lixo electrónico. Na prática não é uma ideia tão boa para quem não é vizinho dos senhores, devido aos custos e à poluição originada pela circulação dos produtos à volta do mundo. Mas por que não começar mais perto de casa, por exemplo devolvendo os produtos aos revendedores autorizados dos nossos produtos? Idealmente, à loja em que comprámos o produto. Isso já é mais fácil e mais prático. Se toda a gente fizesse isso, talvez esses revendedores, depois de tentarem durante algum tempo desfazer-se dos produtos à socapa, na calada da noite, em algum ermo longe da loja, começassem a pensar que tinham de encontrar uma solução melhor (antes de serem presos ou morrerem soterrados em lixo electrónico).

E a minha responsabilidade? Outra iniciativa bastante simples e totalmente sob o nosso controlo é não comprar, ou adiar novas compras o máximo "possível" (claro, fica ao critério de cada um o que é "possível"). A minha câmara fotográfica tem só 1 ano, o meu computador 2, o telemóvel 4...



Conseguirei chegar a 10 anos com algum destes aparelhos? Confesso que soa quase impossível... Não tanto por achar que vou sentir "necessidade" de melhores máquinas (excepto talvez o computador, já que os produtores de software colaboram ativa e vergonhosamente com os de hardware, para tornarem os programas cada vez menos eficientes e exigentes de processadores mais rápidos, discos e memórias maiores, etc.), mas porque suspeito que elas simplesmente vão deixar de funcionar em algum momento e comprar uma nova vai parecer a melhor solução.

Hmmm... E será que não estou mesmo a precisar de um leitor de mp3, um telemóvel com acesso Internet, um leitor de ebooks, um GPS, uma TV, uma consola de jogos, .....?


Histórias de outras cenas

Na coleção "história das cenas" existem outros excelentes vídeos sobre:
- Cosméticos - o uso de substâncias tóxicas em produtos que usamos no dia-a-dia
- Água engarrafada - a "procura manufacturada" (i.e., estimulada pelos fabricantes, neste caso de água engarrafada) que nos leva a comprar coisas de que não precisamos e que poluem o mundo
- O comércio de emissões de carbono e seus problemas (segundo um amigo meu especialista no assunto, existem sérias falhas nos argumentos, apontadas neste artigo)


Histórias de cenas para miúdos

Na mesma onda da "história das cenas", miúdos e graúdos podem tirar proveito dos vídeos (de 2 minutos cada - bem adequados à capacidade limitada de manter a concentração, epidémica hoje em dia) "Loop Scoops" ("vídeos para fazer-nos pensar nas cenas na nossa vida"). Gostei muito deste sobre a Loja da Felicidade:


E tu? Que ideias sugeres para sairmos da economia do lixo e começarmos a economizar lixo?


*Para os fãs e consumidores actuais ou potenciais da Apple: a empresa publica "relatórios ambientais" sobre cada um dos seus produtos. Por exemplo, aqui encontra-se o do famoso iPad. Claro, muitas mensagens positivas. Não faço ideia se os produtos são bons ou maus, melhores ou piores que os concorrentes. A credibilidade de um sistema de avaliação ambiental obviamente não será muito elevada se os autores forem as próprias marcas ou fabricantes dos produtos avaliados. Alguém conhece alguma entidade razoavelmente independente que faça este tipo de análises?

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Estado do ensino, flash mobs e lip dubs

Descobri (obrigado, Miguel) que o Técnico já não é o que era!



Está muito melhor!! Especialmente as praxes (foi uma iniciativa de boas-vindas aos novos alunos!), a que nunca achei piada nenhuma na sua versão (tradicional?) de vingança nos caloiros deste ano pela vingança dos veteranos inflingida aos caloiros do ano anterior, pela vingança de dois anos antes... etc. etc.


Flash Mobs

O vídeo enquadra-se no conceito de flash mob: reunião de um grupo de pessoas em local público para uma actividade surpreendente num curto intervalo de tempo.

Ouvi falar pela primeira vez do conceito há uns 4 anos, a propósito do flash mob organizado por Improv Everywhere (que se define como "Improv Everywhere causes scenes of chaos and joy in public places") numa loja Best Buy em Manhattan, em que um monte de gente compareceu vestindo roupa semelhante à dos funcionários da loja. Na altura achei a ideia espectacular, de certa forma hilariante. Mas também fiquei a pensar nas questões éticas, devido às externalidades implicadas, ao impacto nas outras pessoas. O que terão achado desta iniciativa os funcionários e os verdadeiros clientes da Best Buy? Alguns terão achado piada, outros possivelmente não (especialmente os que decidiram chamar a polícia). A Best Buy, feitas as contas, deve ter apreciado a publicidade gratuita. Mas acredito que seja muito fácil, na miopia encandeada pelo efeito de manada, ter comportamentos que individualmente, em tranquilidade e com a cabeça limpa, não nos pareceriam correctos.

Ainda mais assustador é pensar o que poderá fazer de mal alguém que consiga influenciar tão poderosamente um grupo grande de pessoas. Mas como seria bom que essa pessoa existisse e além de bem intencionada fosse inteligente e capaz de tomar boas decisões (o famoso e utópico ditador benevolente e esclarecido?) e coordenar massas de gente para alcançar objectivos positivos? Eu votaria nessa pessoa para presidente do mundo!


Lip Dubs

E descobri que não é só o Técnico que tem iniciativas criativas e empreendedoras. Este vídeo do ISCTE (obrigado, Ana!) é espectacular. Não só é animado e divertido por si só, como admirável pela organização necessária e qualidade da execução (esta notícia dá uma ideia do processo).



Certamente vozes críticas dirão que este pessoal deveria mas era estar todo a estudar! Tendo passado os meus 5 anos no Técnico ocupado com bastantes coisas além dos estudos, não poderia discordar mais. Olhando para trás, está claríssimo que o que fiz antes e depois das aulas e estudos foi tão ou mais importante para me tornar quem sou. Especialmente os projectos empreendedores na Associação Juvenil de Ciência (em particular a CiênciaJ) e a prática disciplinada e intensa do pentatlo moderno. E sou muito feliz, obrigado! :)

Este vídeo é um lip dub: um vídeo filmado de uma vez só, sem cortes (pelo menos acho que isto faz parte da definição do conceito), com os participantes coordenados por um som gravado (por exemplo, uma canção) que é sobreposto ao som real na edição final do vídeo. E em particular é um University Lip Dub.

Outro exemplo muito recente de um lip dub é este pela independência da Catalunha (recordista mundial em número de participantes). Concordo que está muito animado e espectacularmente realizado, apesar de não me identificar com a mensagem politicamente nacionalista (mas acho muito bem o nacionalismo cultural - a promoção dos próprios valores, características, rituais e tradições - sem desprezo pelos dos demais, nem opressão ou outros impactos negativos).

Divirtam-se!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

"Teologia" buliana

Felizmente muita coisa escrita na Bíblia não é verdade! Se fosse tudo verdade, não haveria fé que aguentasse. Ou, se ainda restassem crentes em tais "verdades", eu não gostaria de estar perto deles!

Estou a lembrar-me de uns chocantes trechos do Levítico (ou ainda melhor aqui), ou alguns machismos "de" S. Paulo, que nunca deveriam ter sido incluídos, ou pelo menos deveriam ter sido excluídos da Bíblia há uns séculos atrás. Textos que sugerem que não pode tratar-se de um livro divino: que divindade permitiria que uma publicação sua os incluísse? Seria preciso muita falta de atenção... que não seria própria de uma entidade omnisciente e de amor infinito.

A grande questão é: se nem tudo é verdade/literal, como distinguir o que é do que não é? Acredito que seja isso que se discute em teologia. Para mim (AAAHH HEREGE!!!) há grandes semelhanças com a história do rapaz e o lobo: uma "mentira" aqui, outra ali... a certa altura já não sei se devo acreditar na seguinte. E se os teólogos têm aceite diferentes "verdades" ao longo do tempo... então que verdades são essas?

Na minha "teologia" acabada de estruturar divido crenças/preceitos/dogmas/etc. em:

1. Claramente faz sentido e ajuda a viver uma vida melhor, portanto é óptima ideia acreditar e seguir. Exemplo: amar é fixe.

2. Claramente não faz sentido e portanto não acredito, independentemente do que as autoridades religiosas possam dizer. Exemplos: textos do Levítico acima referidos; infalibilidade papal; existência de qualquer tipo de "povo escolhido" (seja judeu, cristão, humano - o Deus em que acredito não tem favoritos); sacerdócio machista (ou em geral que homens e mulheres não possam desempenhar papéis semelhantes em situações em que não há nada de sexualmente específico).

3. Não sei se faz sentido, mas não me parece fundamental e, agnosticamente, acho que não há forma de saber se é "verdade", por isso não me preocupo com a questão. Exemplos: virgindade de Maria; Santíssima Trindade; ou, mais chocante para cristãos mais ortodoxos, se Jesus morreu e ressuscitou ou até se Jesus é Deus. (A ideia parece-me demasiado antropocêntrica, judaico-cêntrica, e até algo machista. Por que haveria Deus de privilegiar determinado sexo, determinado povo, determinada espécie animal, em determinado período do tempo? Ou será que Deus encarna outras espécies animais e vegetais, assim como outros humanos, ao longo de todo o tempo? Ou seja, talvez Jesus seja Deus como todos nós e tudo à nossa volta somos, numa visão do mundo próxima da animista?)

4. Não sei se faz sentido, mas é uma questão importante e que pode ser investigada, por isso é boa ideia investigar. Exemplo: assim de repente não me ocorre nada... que falta de curiosidade/interesse!


O que importa é que aquilo em que acredito me ajude a viver uma vida melhor, mais feliz e geradora de felicidade.


PS: Obrigado de novo, João, por provocares mais esta reflexão!