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domingo, 5 de abril de 2020

Responsabilidades

On the street I saw a naked child, hungry and shivering in the cold. I became angry and said to God, “Why do you permit this? Why don’t you do something?”
For a while God said nothing. That night he replied, quite suddenly, “I certainly did something. I made you.”
Anthony de Mello, The Song of the Bird

sábado, 7 de junho de 2014

Já agora, vale a pena pensar nisto...


E pronto, o João adiantou-se e já é autor publicado! É tramado ser passado pelo irmão mais novo :)

Parabéns! Muitos anos investidos a deixar-nos a pensar! Obrigado!

Cliquem na imagem ou aqui para comprar o livro online.

sábado, 22 de junho de 2013

Humana Igreja

Nota a 22/Jun/13: Escrevi este texto (ligeiramente adaptado) em Março de 2009 em resposta a uma discussão familiar sobre notícias da visita do papa a África, que focaram em declarações polémicas sobre o uso de preservativo: "Não se resolve o problema da sida com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o problema." (É de notar que 1 ano e meio depois veio a notícia "Papa Bento XVI admite uso do preservativo para travar a sida")


Concordo que a Igreja é muito mais notícia por más razões do que por boas razões, provavelmente de forma injusta, que não reflecte o balanço da sua acção no mundo.

Não concordo que seja devido a puro maldizer. Penso que a causa profunda desse fácil e natural apontar de dedo a pontos negativos da Igreja não é a cegueira de olhar só para o negativo, a tendência humana(?) a dizer mal. A meu ver, a causa está dentro da Igreja e ao alcance da Igreja mudar: a causa é o dogmatismo da Igreja. (Quem não se lembra do Cavaco e o seu "nunca me engano, e raramente tenho dúvidas"? Insensato convite a que estivesse toda a gente atenta ao seu mais mínimo erro.) O papa fala e as pessoas entendem que ele está a propor a Verdade (mesmo que não seja assim), porque ele "nunca se engana e raramente tem dúvidas" (o dogma da Infalibilidade Papal não ajuda, até porque o comum dos mortais provavelmente o interpreta erradamente como "segundo a Igreja, qualquer coisa que o papa diga está certa").

Se a Igreja admitisse a sua natural natureza humana (quantos dogmas foram criados depois do ano 33 d.C. por esotéricos exercícios de interpretação da vontade divina?), abolisse os dogmas, e admitisse que as suas crenças, regras e preceitos são o melhor que se pode conhecer e considerar como verdadeiro em cada momento (não por isso deixando de ter valor!) e que estão abertos a discussão (como faz a ciência: quem já ouviu alguém dizer mal de uma teoria científica que foi considerada obsoleta por ter sido encontrado um melhor modelo do mundo? Fé não é ciência, mas bem poderia aproveitar alguns princípios básicos bastante práticos, úteis e com sentido), então acredito que:

a) Os católicos tomariam mais iniciativa em propor mudanças construtivas na Igreja. Hoje a Igreja parece-me uma instituição tão pesada e inerte que desanima tentar mudá-la, parece que não tenho hipóteses, que estou condenado ao insucesso e frustração logo desde a partida! É como se fosse até à basílica de S. Pedro tentar empurrar as suas paredes! Não conseguirei movê-la nem um milímetro! (Sou fraco, é verdade, um herege, o problema é falta de fé, diria provavelmente o papa se eu lhe explicasse o que sinto.) Espero que pessoas como o meu irmão se continuem a levantar de manhã com garra para empurrar esse peso-pesado! E espero que os votos de obediência não os impeçam de discordar do que não faz sentido! Acho que deveriam abolir esses votos e substituí-los por votos de discordância (talvez a fazer por todos os crismados) = "todo e qualquer membro da Igreja está obrigado a contribuir para o desenvolvimento da Igreja levantando a voz para identificar oportunidades de melhoria e propor medidas concretas e construtivas para as capturar". Hoje parece que fizemos todos votos de silêncio, de conformismo, que na verdade acabam por significar afastamento da Igreja, porque não nos conformamos mas também não acreditamos em mudança.

b) Os católicos viveriam de forma mais responsável, estariam mais atentos na sua vida, sem fazer "outsourcing" do entendimento do que é bom e do que é mau, interiorizando aquilo em que acreditam, porque saberiam que poderia haver formas melhores de viver, que a Igreja talvez não tivesse (ainda) identificado.

c) Os católicos seriam mais felizes, evitando sofrer de crónicos sentimentos de culpa por pecados sem sentido. Hoje os "bons católicos" sofrem de remorsos contínuos porque não conseguem seguir todas as directrizes da Igreja (e talvez até tenham cometido "pecados capitais" que os condenam ao inferno!): porque não foram à missa, porque não se confessaram no último ano, porque são divorciados, porque usaram preservativo... E isso não os incentiva a serem melhores, antes pelo contrário, na minha opinião. Logo no início da missa dizemos "confesso... que pequei muitas vezes...", todas as semanas! Será possível pecar tanto assim? Provavelmente sim. Mas se passamos o tempo a admitir pecados, até que ponto não nos colocamos num estado de fraqueza contínua ("sou pecador, não resisto a tentações...") em vez de nos programarmos positivamente a sermos fortes e íntegros ("sou forte e renovo o meu total compromisso por ser santo"). É mais uma profecia auto-realizadora: se eu acreditar que sou pecador, mais provavelmente vou pecar; se acreditar que sou ou posso ser santo, mais facilmente sou santo. A omnipresença de artificiais pecados católicos não ajuda (pelo menos a mim não me ajudava, quando era mais ortodoxo).

d) Os católicos seriam mais católicos, universais, abertos ao outro, mesmo que o outro seja protestante, hindu, muçulmano, budista, judeu, ateu, agnóstico, animal, vegetal, ou outra coisa qualquer. Por exemplo, acreditar no dogma de que existe uma invenção tão horrível e manipuladora como o pecado original leva a acreditar (pelo menos no meu ingénuo conhecimento da doutrina da Igreja) que quem não é baptizado morre com esse pecado e não tem possibilidade de atingir o "céu"... Se eu acreditar mesmo nisso, o que pensar de todos os "infiéis" do mundo? Que são uns coitadinhos? Que precisam da minha ajuda para lhes formatar as crenças e motivá-los a fazerem-se católicos, porque é esse o único caminho da salvação? Talvez seja isso mesmo que temos (nós, "ocidentais") acreditado ao longo dos últimos séculos e que nos tem levado a tentar impor a outros povos a nossa forma de viver que acreditamos ser a "verdadeira".


Um sistema que promove votos de obediência, que tenta abafar qualquer dissidência (excomungando quem não segue a doutrina), que compreensivelmente elege como papa o mais ferrenho defensor dos dogmas [pelo menos Bento XVI - vamos ver o Francisco; só a diferença entre "XVI" e "primeiro" já é sinal positivo], dificilmente se irá questionar e ter a sabedoria de distinguir o que deve do que não deve ser mudado, ter a coragem de mudar o que tem de ser mudado e a serenidade para aceitar o que não pode ser mudado. O papa responderia talvez que ele sabe perfeita e sabiamente o que deve ser mudado: nada :)

É essa cega e perigosa inércia totalmente programada no sistema que aponto à Igreja, com todo o respeito pelas coisas boas que tem feito. Não é muito diferente do que acontece no Comité Olímpico Internacional ou nas Nações Unidas. O problema é que a Igreja mexe com coisas provavelmente mais importantes que o desporto ou até as relações entre nações. Daí que lhe apontemos o dedo com tanta facilidade.

As minhas sugestões que espero construtivas, mas provavelmente demasiado radicais (admito que tenho de desenvolver a minha paciência e capacidade para propor mudanças marginais que levem no bom sentido):

1. Forme-se uma "Task Force de Mudanças Rápidas e Simples", para rápida implementação de coisas simples que qualquer pessoa sensata questionaria se não tivesse sofrido lavagem cerebral (como me parece ser a ordenação de mulheres, a possibilidade de casamento de pessoas ordenadas, a abolição do pecado original, ...)

2. Forme-se um "Departamento de Inovação" da Igreja, com malta jovem e menos jovem, muitos leigos de diferentes contextos e culturas, e razoável poder de acção para desafiar o status quo e mudar o que deve ser mudado.

3. Institua-se o voto de discordância (descrito acima)

4. Acabe-se com os dogmas - só vem em quarto lugar não por não ser importante (diria que é a base de qualquer abertura à mudança) mas por imaginar que é o mais complicado de mudar. Talvez daqui a 2000 anos?


E o que penso eu fazer?
- Continuar a tomar responsabilidade pela minha espiritualidade, pela minha moral, questionando a doutrina que me foi passada ao longo da vida e formando os meus próprios valores e crenças, muitas vezes partilhados mas muitas vezes divergentes dos da Igreja, procurando viver cada vez mais de forma equilibrada com Deus, o mundo, a natureza, a humanidade, toda ela.
- Continuar a levantar questões que façam pensar - a mim e ao próximo - e tomar responsabilidade e fazer boas escolhas.

Acho que não me animo a tentar mudar a Igreja directamente. Neste momento vejo tanta coisa a mudar que seria difícil manter a paciência de mudar apenas 0.001% ao longo da minha vida. Além de que provavelmente já teria sido excomungado se partilhasse os meus pontos de vista com o papa ou outra pessoa com autoridade para o decidir. O que me leva a pensar se sou realmente católico - não certamente 100% no sentido que a Igreja Católica lhe dá. (Talvez os meus compadres me devessem retirar o título de padrinho das suas crianças! Ou então arriscam ter filhas a crescer com "votos de discordância", a pensarem por elas próprias! :) )

Mas, quem sabe se não me animo? João, avisa a quem posso escrever lá no Vaticano a oferecer os meus serviços de consultor! :)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

domingo, 10 de março de 2013

Compacto de emoções

Uma das atividades estranhas que me emocionam e inspiram é assistir a competições desportivas que implicam incrível esforço humano, mas que estão ao alcance de seres humanos "normais". É espetacular assistir ao final de uma maratona, muito depois de os atletas profissionais terem terminado, e ver milhares de pessoas "normais" a chegarem ao fim de um percurso não de poucas horas, mas provavelmente de vários meses, ou anos, ou vidas de preparação e antecipação daquele momento. Muita emoção, a estimular a imaginação do que lhes estará a passar pela cabeça, pelo coração, pelo espírito... e também pelo corpo, claro - mas isso é o menos. O que terão investido física, emocional, mental e espiritualmente para chegarem até ali?

Há 2 semanas uns amigos meus fizeram a maratona de Sevilha e por isso vi vários vídeos de chegadas à meta, que os organizadores generosamente disponibilizaram.

O meu favorito é este (em que chega o Mister Fernando ali nas 2h47'06" - parabéns!!!) - vê a partir dos 23" a chegada do atleta 4089 que vem literalmente a voar... tão emocionado que entre agitar os braços, agradecer aos céus, benzer-se, levantar o dedo, celebrar vitória com os punhos cerrados e gritar, quase se esquece de manter-se de pé. Não me importaria nada de fazer um tempo daqueles em Roma daqui a 1 semana!

Vale a pena ir a esta página e clicar em qualquer minuto (especialmente depois das 3 horas, onde começa a chegar mais pessoal) e ver a malta a chegar, com variadíssimas emoções, expressões, celebrações, etc.:
http://www.corriendovoy.com/evento.php?id=783&seccion=atletismo

Recomendo este vídeo com um compacto de chegadas (e emoções) em Sevilha:



Melhor ainda: na próxima vez que estiveres onde houver uma maratona, meia-maratona, corrida de 10 km, corrida na escola, triatlo amador de qualquer distância... ou outro evento qualquer em que certamente as pessoas tiveram de trabalhar bastante para lá estarem (e chegarem ao fim - ou talvez não)... Se não participares, aparece por lá, bate palmas, grita os nomes de quem os levar escritos no equipamento, frases de apoio como "Força aí!!", "Bora lá!", "Tudooooo!!!!!", "Até ao fim!!", "Tu consegues!!!!", "Op op op op oooooooooop!!!",  "Vaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiii!!!". Qualquer coisa! Não fiques indiferente! Nesses momentos, contradizendo escandalosamente a primeira lei da termodinâmica, dá-se uma geração espontânea de energia positiva eletrizante, em que atletas e espetadores sentem arrepios pela espinha e ficam com pele de galinha. IUUUUUUUUUUUUHHHHHHUUUUUUUUUUUU!!!

Daqui a 1 semana há uma dessas maratonas em Roma. Não queres aparecer por lá?

quinta-feira, 29 de março de 2012

domingo, 25 de março de 2012

Conformidade

Hoje lembrei-me do meu professor de Literatura Espanhola de 1º de BUP (equivalente ao 9º ano) e de como nos desafiava a identificar o tema dos livros analisados. Nunca óbvio (e sempre subjetivo, apesar de o professor parecer pensar que não).

Fui ver The Hunger Games (do qual gostei muito, mas não é difícil que eu adore histórias de ficção científica e/ou regimes totalitários). No filme, 24 adolescentes (um rapaz e uma rapariga escolhidos de cada um dos 12 distritos do país) participam num reality show em que o vencedor é o único sobrevivente. Como em tantos dilemas do prisioneiro, os jovens não se lembram de formar uma coligação contra os organizadores do programa e rapidamente começa uma carnificina.



O tema do filme para mim é conformidade: o seguimento das normas esperadas pelo grupo ou sociedade.

Um exemplo mais fácil de relacionar é a guerra: países de todo o mundo escolhem e treinam os seus cidadãos mais capazes fisicamente (jovens por volta dos 20 anos) e enviam-nos para morrer em estúpidas guerras (perdoem o pleonasmo). Como se nota, tenho grande dificuldade em justificar uma guerra (fica para outra bulicena), mas em especial custa-me entender como é possível recrutar tantos jovens para irem matar e morrer por causas alheias.

Conformidade.

Mais perto do meu dia-a-dia (já que felizmente nunca estive num cenário de guerra - Cabul estava sossegada em Agosto de 2003 - e deixei de estar na reserva de recrutamento desde 1/Jan/2012 - se bem que se Portugal entrar em guerra alguém pode tentar reincorporar-me), quantas vezes escolho submeter-me a regras com as quais não me identifico? Quais os "jogos" que decido jogar? Vivo a minha vida como quero, ou como acho que os outros acham que a devo viver? Até onde estou disposto a ir? Em troca de quê? Comida? Dinheiro? Status? De não ser chateado, ridicularizado, preso, morto? Escolho conscientemente para alcançar um bem maior? Quantas vezes jogo cegamente, sem pensar? Ou me engano a mim próprio com racionalizações?

Conformidade...

domingo, 11 de março de 2012

Dragon Ball

Durante o curso no Técnico, há uns 16 anos (glp!), entrei uma tarde na cafetaria da cantina e encontrei um monte de alunos hipnotizados pela TV. Descobri que estavam a ver um tal de "Dragonball" (série de desenhos animados japoneses, ou anime). Fiquei realmente espantado ao ver malta de 20 anos tão fanática por desenhos animados, a ponto de tornar uma prioridade assistir aos episódios diários (enquanto as minhas prioridades passavam por correr, esgrimir, etc., publicar uma revista, ou talvez fazer algum trabalho da faculdade). Em conversa com um amigo, aprendi que era uma série de artes marciais, em que os combates por vezes duravam vários episódios (???). Nunca assisti a nenhum, mas fiquei a pensar "como é que isso pode ser interessante??"

...

15 anos depois...

Na minha primeira viagem ao Japão, uns dias depois da maratona de Tóquio e uns dias antes do famoso tsunami (que me deixou sem grande inspiração para escrever sobre a viagem, por achá-la tão... leviana face ao sofrimento de quem levou com o tsunami em cima)... numa pequena pousada em Nara, perto de Quioto, havia uma estante com alguns livros que os hóspedes podiam ler. Numa olhada rápida, três lombadas vermelhas saltaram à vista.



Eram três dos primeiros volumes da série original de banda desenhada japonesa (ou manga) "do" Dragon Ball (na qual a série de anime se baseou). Recordando os meus amigos fanáticos de anos atrás, peguei no primeiro volume e decidi dar uma olhada, curioso por finalmente perceber qual a piada daquilo!

Não consegui parar de ler.

Li o primeiro volume de uma vez, e no dia seguinte li os outros dois (com o brutal custo de oportunidade de dormir, ou ir passear em Nara! mas o frio exterior ajudava a motivar para aquela hora no quentinho dentro de casa).

Há dias comprei 8 volumes da série em saldos numa livraria que ia fechar e tenho lido um por semana. É sempre tempo bem passado: não só é divertido como transmite boas lições, boas energias e me faz refletir sobre mim mesmo.

Dragon Ball é simplesmente espetacular.

O autor, Akira Toriyama é brilhante. Excelente criador de histórias: épicas, cheias de aventuras, emoção, habilidades e poderes incríveis, muito muito humor, personagens carismáticas e coerentes, caricaturadas, muitas vezes ridículas, muitas vezes admiráveis e inspiradoras... Mas também excelente desenhador: traços simples mas incrivelmente comunicadores, quadrinhos dramáticos, estáticos mas cheios de movimento, de energia, de som, de impacto... Sou grande fã das bocas: algo tão simples como uma elipse deformada dando tanta alma e emoção às personagens.



Son Goku, o simpático puto protagonista (que há 16 anos eu pensava ser o "Dragonball", e com quem algumas crianças naquela altura me confundiam quando o meu cabelo estava mais comprido), desenhado na capa do livro acima, é particularmente espetacular e inspirador:
. Imaculadamente bom, com zero maldade
. Super-hiper-honesto, muitas vezes ingénuo, nunca aplicador de truques menos limpos, muitas vezes alvo deles
. Sempre sempre bem disposto, a emanar infinitas energias positivas, cheio de alegria de viver (e de lutar), mesmo - ou especialmente - quando embrenhado na mais épica final do maior torneio de artes marciais do mundo (O Mais Forte Debaixo dos Céus)
. Grande amigo, leal, companheiro, em especial quando em combate (Son Goku para Kuririn, o melhor amigo, quando se defrontaram pela primeira vez num torneio, nas meias-finais da 22a edição d'O Mais Forte Debaixo dos Céus: "Estou tão entusiasmado! Vou dar o meu melhor!! Tu também, OK, Kuririn?")
. O maior respeitador dos adversários: quando vitorioso ("Talvez ele estivesse num mau dia hoje...") e quando derrotado ("Que grande combate! Ele é mesmo muito bom!! Que privilégio poder aprender com ele!")
. Incansável trabalhador, aplicado, com a melhor ética de trabalho alguma vez vista, infinita força de vontade, sempre preocupado em desenvolver-se mais e mais e mais (por exemplo, passando 3 anos a treinar a cauda - o seu "calcanhar de Aquiles"), para ficar mais forte, mais rápido, sempre melhor

Quando for grande quero ser como o Son Goku!

domingo, 1 de janeiro de 2012

Flecha kamikaze

Competição anual de pentatlo moderno. Na minha pior forma de sempre (depois de dois meses sem correr – paragem mais longa em 18 anos – em recuperação de entorse grave), ainda mais que habitualmente, o objetivo era passar excelentes momentos com os meus amigos pentatletas – os de sempre e os mais recentes.

Na esgrima, a falta de treino não poderia ser desculpa para um mau resultado. Não treino esgrima regularmente desde 2002, portanto se precisasse de treino para fazer alguma coisa estaria tramado. E verifiquei em anos anteriores que é possível chegar à prova, colocar-me no estado mental certo e fazer um ótimo resultado. A única diferença era a incerteza sobre quanto o meu tornozelo iria aguentar e alguma rigidez muscular devido a uma queda do cavalo (ou melhor, uma queda minha, do cavalo para o chão) um par de horas antes.

Começou a prova e... de repente, sem aviso prévio, uma flecha kamikaze. E outra. E outra! Outra, outra, outra! Quando o ombro desabituado do esforço começava a doer, uma flecha para resolver o assunto. Quando não sabia o que fazer, uma flecha. Por razão nenhuma, uma flecha. Uma chuva de flechas kamikaze!

Mas o que são flechas kamikaze e porquê escrever sobre elas durante a passagem de ano??

A flecha é um movimento de esgrima em que o esgrimista sai disparado em direção ao outro para lhe tocar (quem gosta de ler pode aprender mais aqui e recomendo este vídeo para um monte de exemplos, nem sempre tecnicamente perfeitos). Uma boa flecha é realizada no momento certo (apanhando o adversário desprevenido), da distância certa, com preparação (p. ex., uma finta) e velocidade.

Foto copiada daqui, espero que sem infringir direitos de autor (quando encontrar uma minha substituo...)


A flecha kamikaze, como o nome indica, é uma versão mais suicida do movimento, que aprendi com o Stascio (um treinador polaco que treinou a seleção nacional entre 1997 e 1998). Se bem recordo, a diferença era a menor (mas não nula!) preparação, para aumentar a velocidade e o efeito surpresa.

E só quase 15 anos depois reparo como a flecha kamikaze oferece lições bem para além da esgrima e do desporto. Tal como na flecha kamikaze, há muitos momentos na vida em que posso ser:

. Mais assertivo, determinado, focado e confiante: A flecha não sai se eu estiver num estado passivo, conformado, desanimado, ou simplesmente distraído. Quando saio em flecha, na verdade eu já ganhei o toque: já o senti, já o visualizei, na minha cabeça ele já aconteceu – só falta o corpo recuperar o atraso e consumar o que já aconteceu. Fora do desporto é a mesma coisa: quando estou todo ali, a viver o presente, quando acredito, visualizo o meu objetivo e o faço acontecer na minha cabeça, parece que depois tudo é simples, mesmo se complexo, e “basta” executar.

. Mais rápido e orientado para a ação: A flecha não é consequência de uma cuidadosa ponderação de prós e contras, de uma análise exaustiva da situação, mas sim de um momento inspirado em que o subconsciente diz que faz sentido avançar. Não advogo seguir cegamente o instinto: as minhas flechas são reflexos surgidos de imensas horas de treino que ficaram codificadas no meu corpo e me permitem tomar decisões sem as tomar, de forma automática, com o subconsciente. A experiência pode ajudar a agir da mesma forma em muitas áreas da vida. Mas, mesmo sem experiência, muitas vezes uma ação rápida tira-me com pouco ou nenhum risco da paralisia devida à indecisão ou à busca pela perfeição inexistente – o que posso perder se não sair perfeita? (Nesta competição muitas flechas saíram particularmente imperfeitas, ainda assim com ótimos resultados!)

. Mais em “fluxo”: As flechas não costumam acontecer sozinhas, como estrelas cadentes isoladas. Quando estou no estado mental certo elas simplesmente vão acontecendo, uma atrás da outra. Em 1997, uma chuva mágica de flechas kamikaze no Europeu de juniores de pentatlo levou-me ao melhor resultado internacional de sempre (15o). Fora do desporto também tenho vivido alguns períodos de fluxo, em que tudo faz sentido, em que sinto todo o meu ser (corpo, mente, coração e alma) alinhado, alegre, feliz, motivado, e tudo é bom e tudo sai bem, geralmente com muito trabalho mas sem esforço. Como se fosse magia. Como seria bom viver o tempo todo assim!


Quando sabemos e quando não sabemos bem o que fazer, o caminho é o mesmo: em frente!

Força aí! Muitas flechas kamikaze para todos em 2012!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

domingo, 28 de agosto de 2011

Competição com compaixão



Campeonato do mundo de atletismo. Maratona feminina. A 15 minutos do final (4 kms e tal). Duas quenianas lideram (Kiplagat e Cherop), seguidas por uma terceira queniana (Jeptoo). A líder, Kiplagat, atravessa-se à frente de Cherop para apanhar uma garrafa de água no posto de abastecimento, e, por um ligeiro toque entre as duas, cai.

A reacção instintiva de Cherop, certamente não produto de uma ponderação racional naquela fracção de segundo, é parar e oferecer ajuda. E nos minutos seguintes, Cherop e Jeptoo, não atacam para dar tempo a Kiplagat de se recompor (e possivelmente porque não sobram muitas forças para um ataque). Pouco depois, Kiplagat ataca e acaba por ser a campeã do mundo, seguida de Jeptoo e depois Cherop.

Na conferência de imprensa, as três falam naturalmente do episódio, como amigas, sem qualquer sombra de dúvida sobre terem feito o que tinham de fazer. O que significa que certamente fizeram o que tinham de fazer.

Duvido que eu tivesse feito o mesmo. 2h13min de esforço pesado, a minutos de uma medalha, sonhando com o ouro... O meu amigo, favorito, tropeça em mim, arriscando deitar-me também ao chão, por se atravessar descuidadamente... Oportunidade para o ajudar, ou oportunidade para atacar e o deixar para trás?

Se racionalmente tenho dúvidas, suspeito que no calor do momento no mínimo continuaria inercialmente a correr ao mesmo ritmo.

Na minha visão competitiva do desporto, considerando fundamental cada atleta querer verdadeiramente vencer para que as competições façam sentido, não acho que Cherop e Jeptoo tivessem que ser tão solidárias, e até fico a pensar se não deveriam ser menos solidárias.

Mas não posso deixar de me interrogar. Há aqui uma mensagem, e parece uma mensagem bonita: de amizade, de solidariedade, de colaboração dentro da competição, gente (ao mais alto nível de um desporto super competitivo) que se importa, que não só não pensa em vencer a qualquer custo como tem uma noção de justiça competitiva com compaixão. Não sei qual é exactamente a mensagem, ou quais são as mensagens - para o atletismo, para outros desportos e para outras actividades humanas. Mas, já agora, vale a pena pensar nisto.

domingo, 19 de junho de 2011

Stop it!!

CUIDADO! Este vídeo pode ter efeitos radicais! Não o vejas se não estiveres pronto a tomar as rédeas sobre a tua vida!




É o que tecnicamente se chama um chapadão nas fuças.

Quando vi este vídeo pela primeira vez há uns dias (obrigado, Zé!) achei engraçado... e logo comecei a perceber também quão poderosa é a mensagem! E quanto mais penso nela, mais poderosamente fantástica (ou fantasticamente poderosa?) me parece:

Deixa-te de tretas, Nuno! Pára com isso! Pára de fazer as coisas que achas que não deverias fazer! Pára de não fazer as coisas que achas que deverias fazer! Acaba já com comportamentos indesejados! Acaba já com... (não, não vamos por aí...) o quer que seja que te limita!

Não tens capacidades? Desenvolve-as!
Não tens acesso a determinados recursos? Arranja-os!
Não conheces as pessoas certas? Apresenta-te!
As coisas simplesmente não acontecem? Fá-las acontecer!
Não tens sorte? Trabalha para a teres!
Não acreditas em ti? Acredita!
Não és X Y Z? Sê!

Toma conta da tua vida! Toma as rédeas e leva-a para onde queres! Queres viver a vida ou ser vivido por ela? Não venhas com tretas, desculpas, razões, explicações e outros sinónimos. Vais ao volante ou vais (já morto) no lugar do morto? Assume a responsabilidade por tudo o que fazes e não fazes e vive como queres viver. Não como o mundo, o governo, o chefe, a família, os amigos, os outros, "eles"... querem que vivas.

PÁÁÁÁÁRAAAAAAAAAA!!

Ou, talvez mais positivamente: FORÇA AÍ, BUTES NESSA!!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Optimismo estratégico

Tenho dificuldade em expressar a algumas pessoas por que é que sou optimista. Muitas pensam (provavelmente com alguma razão) que sou simplesmente ingénuo.

Estava aqui a investigar sobre mediadores de conflitos internacionais e a ler sobre Herbert Kelman, um académico pioneiro em "resolução interactiva de problemas" (simplificando: pôr as partes envolvidas num conflito a falar e a discutir como resolver o conflito...), que desde os anos 70 tem aplicado ao famoso conflito israelo-árabe. E nesta entrevista com ele li a explicação que procurava:

"I would describe myself as a strategic optimist, and I am distinguishing it from being a naïve optimist, who would say that everything and the world is good. I see optimism rather as a strategy; and if you maintain this sense of possibility, then you keep looking for where the points of entry are, where there are things you can do in order to move forward. And while doing it, you create positive self-fulfilling prophecies."


Se o Herbert me permite: eu também sou um optimista estratégico! Acima de tudo acredito (ou tento acreditar, nem sempre é fácil) que as pessoas são boas (mas por vezes um pouco cegas ou estúpidas), que o mundo é um excelente lugar para viver, que a vida é espectacular, que as coisas vão correr bem, que é possível fazer isto e aquilo, que o copo está meio cheio... acredito em tudo isso e mais alguma coisa por um motivo estratégico: porque me ajuda a construir profecias auto-realizadoras positivas, em que vou investir para as fazer acontecer, e assim viver uma vida melhor, alcançar mais objectivos, ser mais feliz. Se tenho a opção de escolher ser optimista ou ser pessimista, por que raios haveria de escolher ser pessimista e criar profecias auto-realizadoras negativas, que me levariam a mais provavelmente confirmar tudo o que de mau eu conseguisse imaginar? Não, obrigado!

E tu? Como acreditas que vai ser 2010?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Homem-pássaro

Em dia típico de balanços do ano e da vida, e de resoluções para o próximo ano e resto da vida, nada como deparar com novas realidades para desafiar os nossos paradigmas.



Obrigado The Science of Sport


Será que é a este tipo de actividades que o meu pai se refere quando diz "Tu vê lá, não te estiques!"? Pode ficar descansado que não estou a pensar meter-me em cenas destas! Desportivamente, em 2010 tenciono ficar-me pelos habituais pentatlos, triatlos e maratonas.

Interessante como este tipo de vídeos ou reportagens nunca referem taxas de mortalidade, ou pelo menos horas de treino e energia gasta para chegar ao nível de terminar ileso um salto destes. De qualquer forma, estas "maluquices" podem sempre despoletar pensamentos úteis e aplicáveis a todos:

  • Será que sofro de excessiva sanidade mental, auto-limitando-me ao acreditar que determinadas actividades ou objectivos na vida são demasiado difíceis ou mesmo impossíveis e assim criando profecias auto-realizadoras negativas?

  • Estarei a investir o meu ser, a minha existência (o tempo, energias, disponibilidade mental, etc.) de forma adequada para atingir os meus objectivos na vida?

  • Sou capaz de discernir quais são os saltos que devo dar e aqueles que devo evitar?

  • Tenho tido a coragem e a confiança para avançar quando estou à beira do abismo e o caminho certo é em frente?

  • Quando voo a 200 à hora na vida, sei quando tenho de virar à esquerda ou à direita para continuar no bom caminho, ou quando tenho de abrir o pára-quedas e fazer uma pausa?


O que é que me impede de voar, de ser homem-pássaro na minha vocação?

Feliz 2010, com muitos voos de sucesso! Ou pelo menos muitos "treinos" em direcção a grandes voos!



Quem quiser saber mais sobre estes homens-pássaro e/ou começar a voar:



foto: Raise the Sky (recorde dos EUA de formação de homens-pássaro: 68)

domingo, 29 de novembro de 2009

O egoísmo de Teresa de Calcutá

Tinha (e acho que ainda tenho) a teoria do egoísmo generalizado: tudo o que fazemos - todos nós, incluindo a Madre Teresa de Calcutá - é, em última análise, egoísta, mesmo que seja para bem alheio. Podemos querer ajudar o próximo, mas a motivação para o fazermos é sabermos, no fundo, no fundo, que isso nos vai fazer sentir bem, felizes, mesmo que a acção em si nos possa custar. Nesta teoria, um egoísta de horizontes largos, que sofre de baixos níveis de cegueira (e portanto vê mais do que o seu umbigo) e reduzida estupidez (portanto toma boas decisões), pode e deve ser feliz, mesmo tendo de passar por grandes sofrimentos.

Esta semana li (ou reli - a minha memória é curta) um artigo sobre a "vida secreta de Madre Teresa de Calcutá", a propósito do lançamento do livro Mother Teresa: Come Be My Light em 2007.



fonte: TIME


O artigo descreve como ela passou quase 50 anos sem sentir a presença de Deus (mais ou menos desde a fundação das missionárias da Caridade até à morte em 1997). Em alguns momentos parecia até duvidar da existência de Deus. Aparentemente ela continuava a fazer o seu trabalho no dia-a-dia, motivando as pessoas em sua volta, conseguindo esconder com sorrisos aquilo que lhe ia na alma, mas profundamente triste.

Fiquei a pensar... Será que Teresa era infeliz, apesar do bem que fazia ao próximo? O artigo descreve uma Teresa que não soa realmente muito feliz... Será que a teoria do egoísmo generalizado está errada? Ou é a "excepção que confirma a regra"? (Aquela frase sem lógica nenhuma frequentemente usada para não ter de explicar algo que não encaixa nas teorias vigentes.)

Talvez Teresa fosse, além de uma mulher de iniciativa e imensamente generosa, algo neurótica? Por quê stressar tanto com isso de "sentir Deus"? Afinal, o que significa "sentir Deus"? Sendo Deus transcendental, parece algo ambicioso querer "senti-lo" (em termos de seis sentidos, ou mesmo da razão ou do coração). Consta que no juízo final Deus dirá "sempre que fizeste isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizeste." [Mt 25,40] Por que não lhe haveria de bastar sentir o carinho dos “pequeninos” com quem interagia no dia-a-dia?

Provavelmente não importa se Teresa era ou não feliz – espero e acredito que fosse, mas não posso fazer nada sobre isso agora. O que importa é se eu sou feliz. Se tu és feliz. Se as pessoas à nossa volta são felizes.

Não acredito em juízo final, nem em Céu nem em Inferno: isso é tudo demasiado longínquo, e portanto difícil de ponderar nas decisões do dia-a-dia. Facilmente me torno um egoísta cego se forem essas as minhas referências. Acredito em céu e inferno aqui e agora. Nesta vida. No presente. Céu é ser feliz, inferno é ser infeliz. Não há juízo final – sou julgado a cada instante da minha vida. E acredito que recebo da vida aquilo que procuro. Vazio se procuro vazio. Felicidade se procuro felicidade.

Chegar à felicidade (ou simplesmente estar vivo) costuma implicar algum tipo de dor – física, emocional, mental, espiritual... Mas dor não tem de implicar infelicidade: posso e devo, equanimemente (algumas ideias sobre desenvolver a equanimidade em “A arte de viver”), com serenidade, observar a dor – “hmm... dói-me...” – aceitando que ela está presente e que provavelmente desaparecerá mais cedo ou mais tarde. E reconhecer que aquilo que estou a viver é em grande parte responsabilidade minha, deriva das opções que fiz, decisões que tomei, ajuda a relembrar o caminho de felicidade que escolhi, que possivelmente exige determinadas privações e provações. E que sentido faz sofrer com aquilo que não está ao meu alcance mudar?

Um exemplo extremo de felicidade que passa pela dor é o de Jesus Cristo quando, pelas três da tarde de uma sexta-feira na Páscoa de um ano próximo do 33, antes de se apagar, gritou "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" [Mt 27,46]. Acredito que, apesar do sofrimento, Jesus homem estava também egoisticamente a procurar a sua felicidade (sim, espalhando felicidade). Em última análise, meteu-se naquela alhada porque decidiu que era o caminho certo, o caminho da felicidade, mesmo que trouxesse tantas dificuldades.

Não estou a sugerir que é fácil ser um egoísta de horizontes largos, antes pelo contrário. A tendência de desvalorizar o futuro e obter rápida satisfação torna-me muitas vezes cego. E mesmo que não esteja cego, por vezes a minha inteligência está em baixo de forma e nem sempre tomo as melhores decisões. A bulinova sobre a teoria do egoísmo generalizado oferece algumas ideias para tentar seguir o bom caminho: totalmente egoísta, mas comprometido com a tarefa constante de reduzir a cegueira e a estupidez.

Sê feliz e espalha felicidade!


domingo, 19 de julho de 2009

De GADES a GADEH!

[Não, não andei a passear em algum lugar estranho das Arábias, foi mesmo "só" mais uma viagem interior... ou, como brasileiros tiradores de sarro poderão sugerir, mais uma viagem na maionese :) ]

Não é raro suspirarmos ou ouvirmos suspirar “Ah... finalmente sexta-feira!” ou, mais penosamente, “Já só vivo para o fim-de-semana...”, ou, numa perspectiva de médio prazo, “Estou desejoso de que venham as férias!”, ou ainda, para quem tende a olhar para o longo prazo, “Como será bom chegar à reforma e finalmente poder gozar a vida!”

Em inglês, este sentimento é muitas vezes partilhado através da expressão “Thanks God It's Friday!” (que até deu nome a um franchising internacional de comida calórica de salubridade duvidosa), ou do respectivo acrónimo TGIF, que podemos traduzir por “Graças A Deus É Sexta-feira!” ou GADES.



Por vezes, estas expressões reflectem apenas um cansaço saudável, de quem trabalhou de forma dura mas motivada durante a semana laboral e está a precisar de um descanso para recarregar baterias e voltar ao ataque na segunda-feira, ao trabalho realizador, cheio de sentido. Outras vezes, é mesmo uma reclamação de alguém que não gosta do que faz mas não se sente mal o suficiente para decidir deixar de o fazer (pode ser que se trate do pior emprego do mundo). Em casos extremos, a pessoa está no limite das suas energias, motivação, capacidade de encaixe, o quer que seja que a mantém naquele trabalho, e está prestes a desistir.

Em alguns momentos da minha vida (felizmente poucos) ficou muito claro que estava a viver para o fim do dia, para o fim da semana, para o fim do projecto... Não era cansaço saudável: doía a cabeça, o coração, até a barriga. Possivelmente um pior emprego do mundo a manifestar-se finalmente, para minha salvação, como mau. Na última vez que me senti assim, reparei que ninguém me estava a apontar uma pistola à cabeça. Eu estava ali porque queria. Então por que é que eu queria? Por que é que estava ali? Esclareci as razões das minhas opções, denunciei as falsas e destaquei as válidas. Recusei a visão negra que me tinha encandeado ultimamente e sintonizei um novo canal, com uma nítida visão positiva (mas consciente dos pontos fracos e dificuldades, impossíveis de resolver imediatamente, ou de ignorar). Escondi a imagem do copo meio vazio colando por cima a do copo meio cheio (bem mais cheio do que eu pensava!). Parei de reclamar e de me desculpar com factores externos e responsabilizei-me pela minha própria situação. Tomei as rédeas e tomei decisões. Parei de viver para o futuro, que nunca mais chegava, para me concentrar no presente (que estava sempre ali, como o próprio nome indica: presente). Efeito milagroso: na prática a minha situação não tinha mudado nada (e só mudaria meses depois), mas as dores físicas desapareceram. E as do coração, mente e espírito também. De um dia para o outro. Sem drogas.

Tinha acabado de fazer a viagem de GADES a GADEH: Graças A Deus É Hoje! Um passo importante para tentar deixar de separar a vida entre trabalho e fora do trabalho e aprender a viver a 100% aquilo em que escolho investir o meu tempo e energias. É uma aprendizagem sem fim (como já comentado na aula de felicidade) e tive algumas recaídas de volta a GADES. Mas naquele dia descobri a auto-estrada para regressar rapidamente a GADEH!

Vida é vida, em cada momento. A dormir ou acordado, no trabalho ou fora dele, sozinho, com a família, amigos, colegas ou desconhecidos, aqui ou ali, em casa ou em viagem, enérgico ou cansado, saudável ou doente, faça chuva ou faça sol. E para procurar viver cada momento a sério, a estação seguinte a GADEH é GADEA: Graças A Deus É Agora!!

Vivamos o presente, e é provável que sejamos mais felizes!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Teste do milhão de contos

Imagina que tens um milhão de contos* no banco (ou outra quantia exorbitante que te deixaria descansado financeiramente até ao fim da vida). O que te fará levantar da cama amanhã de manhã? O que irás fazer? Onde aplicarás o teu tempo e energias – ou seja, a tua vida?


imagem encontrada aqui


Regresso à realidade. O que é que me impede de fazer aquilo que faria se realmente tivesse um milhão de contos? Por que não dedico a vida àquilo que quero profundamente, que me preenche, me completa, me faz feliz (provavelmente fazendo felizes a outros)?. Por quê dedicar-me a actividades, por vezes estúpidas, desagradáveis, inconsequentes ou, pior, de más consequências – ou tudo isso junto – só porque me ajudam a "pagar as contas"? Para morrer qualquer dia sem ter justificado a minha passagem por este mundo?

“Mas como posso não pensar em ganhar dinheiro?! Não sou rico!” Os leitores mais atentos das bulicenas podem ter reparado que “ter um milhão de contos” equivale a ter cobertura financeira infinita. Mais fácil que acumular tanto dinheiro talvez seja reduzir as necessidades financeiras para não precisar tanto dele - a Folha Forreta talvez possa ajudar. E se eu me dedicar àquilo que verdadeiramente me apaixona e me faz feliz será que a vida não fica mais fácil? Até pode ser que alguém me pague pelo que faço. Ou nem me pague mas dê acesso a recursos que me ajudam a viver uma vida materialmente mais confortável.

Amanhã é um novo dia. Vou acordar e repetir o teste do milhão de contos. Raramente me deito convencido de que vivi o dia 100% fiel ao teste, até porque nem sempre é fácil definir o que é que vale mesmo a pena. Mas se não fizer a pergunta com certeza que não encontrarei a resposta.


*É em contos que meço o custo monetário das coisas. 1 conto = mil escudos (a moeda que circulava em Portugal antes da adopção do Euro em 2002) = 5 Euros. Portanto, 1 milhão de contos = 5 milhões de Euros.

sábado, 20 de junho de 2009

Sorrisos sem fronteiras


Não, não é mais uma bulicena sobre um suposto terrorista capturado em Singapura (pelo menos ainda não!).

Esta é mesmo a minha fotografia no passaporte. Reconheço que não é a minha fotografia mais simpática. Dois factores contribuem, na minha opinião, para a minha cara de poucos amigos, cada um com uma boa explicação:

A barba: O meu visual habitual não é perfeitamente barbeado, mas também não é muito barbudo (até porque mesmo que eu quisesse a minha barba nunca ficaria verdadeiramente taliban, por falta de qualificações genéticas). Não era minha intenção ficar com barba no passaporte. Eu levava uma fotografia mais “limpa” comigo... mas descobri que agora as fotografias para o passaporte são tiradas no momento de solicitar a emissão. Para não atrasar o processo e porque não costumo levar lâminas de barbear no bolso ficou mesmo assim.

O sorriso (a falta dele): Como se a barba não fosse suficiente, a senhora do Governo Civil de Lisboa deu-me uma instrução claríssima, com um certo tom autoritário: “Nada de sorrisos!” (Ela tinha visto a minha foto no BI e provavelmente tinha-se perguntado como teria sido possível alguém deixar passar uma foto tão escandalosamente alegre; admito que o sorriso está um bocado amarelo, mas foi o que se arranjou na altura e está bem melhor que o passaporte.)



Como já comentado, eu até sou contra a existência de fronteiras e, consequentemente, de passaportes. Acho que deveria haver livre circulação de pessoas pelo mundo inteiro. A egoísta e opressiva invenção de fronteiras rigidamente controladas é muito recente na história humana, e ainda mais na existência do planeta – tenho esperança de que acabem num dia não muito longínquo. Na minha euro-ignorância, a livre circulação de pessoas é provavelmente o que mais aprecio na União Europeia. Por enquanto exigem-me um passaporte para andar a circular pelo mundo e por isso o renovei.

Mas qual será a ideia de me impedirem de sorrir?? Eu gosto de sorrir e gosto de ver sorrir. Fiquei a sentir-me algo reprimido, um pouco como o protagonista da curta-metragem “Validation”. Quando passo nos postos de imigração, a não ser que venha doente ou muito cansado da viagem, é provável que sorria. Se ainda por cima for barbeado, como é que o agente de imigração vai acreditar que sou o dono deste passaporte? Nas últimas vezes que aterrei no aeroporto de Lisboa passei pelos novos controlos automatizados de imigração, em que um computador supostamente reconhece a minha cara comparando-a com a foto no passaporte e deixa-me entrar no país. Escusado será dizer que o computador nunca me reconheceu e foi sempre necessária intervenção humana (de algum agente da autoridade – um daqueles senhores que foram encarregues de manter as fronteiras controladas – invisível, sentado em frente a algum ecrã).

A fotografia do meu passaporte tem ao menos uma vantagem: faz-me sorrir quando olho para ela, ou quando tenho de explicar a alguém o meu ar assustador!

Em vez de proibirmos os sorrisos... será que não os deveríamos tornar obrigatórios? Não sorrir deveria ser até pecado!

Bons sorrisos!

domingo, 14 de junho de 2009

Como correr a primeira maratona

“Como é que se começa a correr maratonas?”, perguntou há tempos a minha mãe.

“É simples,” respondi, “basta começar a correr cada vez mais, até ser capaz de correr 42 km seguidos.”

É assim mesmo. Não há segredos. Não há substâncias (lícitas ou ilícitas) ou equipamentos milagrosos. “Basta” correr. Então, para quem está interessado em correr uma maratona ou outra distância mais louca ou menos louca: Força aí! Boas corridas! (Claro que não é para todos, e não ser corredor não faz de uma pessoa um ser humano inferior!)

...
...
...

“Só isso? É mesmo só começar a correr? Mas quanto corro no primeiro treino?? E quanto aumento em cada treino? Um minuto? Ou um quilómetro? E quanto tempo demoro desde correr zero quilómetros até à minha primeira maratona??”

Hmmm... parece que a minha resposta não foi suficiente... Vamos lá a ver se consigo fazer melhor, com uma pequena introdução aos princípios básicos do treino, treinos de corrida, equipamento e formas de motivação.

Para quem não se sente minimamente atraído por correr, talvez possa encontrar aqui ajuda para praticar outros desportos. E quem não se interessa por desporto em geral (porquê??!?) talvez possa encontrar algumas ideias de como lidar com outros desafios na vida, que exijam preparação, motivação e disciplina. E quem não tem quaisquer desafios na vida... hmmm... talvez deva verificar o pulso – será que morreu sem dar por isso?


Princípios básicos do treino desportivo

Com estes ou outros nomes, há alguns princípios que servem de base ao treino desportivo e que tentarei definir aqui de forma mais ou menos livre (convido os especialistas a corrigirem ou completarem nos comentários).

Princípio da especificidade: Para o corpo melhorar a capacidade de realizar determinado tipo de esforço, precisa de realizar esse mesmo tipo de esforço. Implicação: Quem quer correr melhor deve treinar corrida (treinar natação, p.ex., poderia trazer alguns benefícios úteis mas não seria tão vantajoso).

Princípio da adaptação: A forma desportiva melhora quando o corpo, após ser submetido a um stress (uma carga de treino), se adapta, regressando a um estado de equilíbrio em que está mais habilitado a corresponder a novo stress do mesmo tipo. Implicações:

  • A melhoria de forma leva tempo – imediatamente depois de cada treino ficamos em pior forma, e não em melhor forma (é muito mais difícil correr 10 quilómetros logo após termos corrido 10 quilómetros do que depois de um dia de descanso), e as melhorias produzidas por cada treino são subtis
  • É necessário repousar entre treinos (para o corpo poder recuperar do stress a que foi submetido)
  • As cargas de treino devem ser incrementais, para o corpo continuar a ser submetido a stress (mantendo cargas sempre iguais, a certa altura o corpo não reconhece novo stress e portanto não se adapta e a forma não melhora).

Princípio da individualidade: Pessoas diferentes reagem de forma diferente aos mesmos estímulos. Implicação: Os programas de treino devem ser adaptados às necessidades e características de cada indivíduo.

Princípio da reversibilidade: As adaptações geradas pelo treino são geralmente (bastante) reversíveis. Implicação: Para se manter uma boa forma física é necessário manter a continuidade de treino.


Treinos de corrida

Os princípios do treino desportivo sugerem que um plano de treinos de corrida deve:

  • Especificidade: incluir esforços de corrida
  • Adaptação: não ser apressado, ser gradual, incluindo períodos de repouso
  • Individualidade: ser adaptado às capacidades actuais de cada atleta, e à evolução ao longo do tempo
  • Reversibilidade: ser contínuo e disciplinado, evitando longos períodos de repouso que impliquem uma perda significativa de forma

Correr é para mim? Não sei – tu é que sabes! E talvez o teu médico. Recomendo analisar previamente a adequação física e psicológica da corrida à situação de cada um.

Quanto corro no primeiro treino? Se actualmente não corres nada, experimenta começar a correr por exemplo 15 ou 20 minutos devagar (a velocidade não importa). Se for de mais, corre aquilo que for razoavelmente confortável (talvez apenas um minuto). Se não conseguires correr nem um minuto seguido, talvez a corrida não seja o desporto mais apropriado para ti – vê lá isso bem.

E quanto aumento em cada treino? Aumentar o volume de treino (tempo ou quilómetros) em não mais do que 10% por semana costuma funcionar bem, permitindo que o corpo se adapte às crescentes cargas de treino e prevenindo lesões. Por exemplo, se esta semana correste um total de 60 minutos, na próxima semana não deverias correr mais do que 66 minutos.

E quanto tempo até à minha primeira maratona? Depende muito da situação actual e das aptidões naturais de cada um. Se actualmente não corres nada, eu sugeriria o objectivo de correr uma prova de 10 km no fim do primeiro ano de treinos, uma meia-maratona no fim do segundo ano e uma maratona no fim do terceiro. Se já corres mas nunca correste uma meia-maratona, sugiro ambicionar correr uma no final do primeiro ano. Se já correste meias-maratonas, talvez estejas pronto para tentar o desafio dos 42 km!

Como faço para definir um plano de treinos? Podes pensar juntar-te a um clube ou grupo de treinos ou contratar um treinador – além de ajudarem a definir o plano de treinos, contribuirão com motivação e disciplina (ver abaixo). Também podes tentar definir o teu próprio plano de treinos, já que corrida não é propriamente ciência de foguetões. Podes encontrar ajuda entre amigos entendidos no assunto, na Internet, revistas ou livros especializados, ou no AUTO-TREINADOR®.


AUTO-TREINADOR®

As bulicenas, em mais um generoso serviço à humanidade, colocam ao dispor de todos os corredores e candidatos a corredores o AUTO-TREINADOR® – uma ferramenta que permite a qualquer pessoa definir o seu plano de treinos para uma corrida de 5, 10, 21 ou 42 km, bastando introduzir algumas informações básicas.

AUTO-TREINADOR®

Espero que o AUTO-TREINADOR seja fácil de entender. Os números na tabela são minutos de corrida a fazer em cada dia da semana. À direita do plano de treinos existe uma tabela para ir preenchendo com os treinos efectivamente realizados, para acompanhar a execução do plano. Também sugiro registar semanalmente o peso e a frequência cardíaca – dois indicadores que deverão melhorar (diminuir) um pouco ao longo do tempo (a não ser que sejas já super atleta).

Os planos gerados são bastante simples. Os princípios básicos são:

  • Começa da base actual (“corrida mais longa da semana neste momento”)
  • Quatro treinos por semana, incluindo um treino longo ao domingo (fica à vontade para alterar o número de treinos – sugiro algo entre 3 e 6 por semana, dependendo da frequência actual e das ambições e disponibilidade – ou mudar os dias da semana, mas recomendo vivamente cumprir o treino longo, o principal para tentar superar o objectivo final)
  • Os minutos por corrida vão aumentando gradualmente ao longo das semanas até ao objectivo proposto
  • Uma semana mais leve a cada quatro semanas, para descanso/recuperação

O AUTO-TREINADOR não funciona bem para objectivos muito agressivos, como querer correr uma maratona dentro de um mês quando a corrida mais longa actual é de 30 minutos, e não permite planear preparação para objectivos dentro de mais de seis meses.

Esperando contribuir para a credibilidade da ferramenta: eu próprio uso o AUTO-TREINADOR para desenhar o esqueleto dos meus planos de treinos, que depois optimizo e complemento manualmente. Se decidires utilizá-lo, não hesites em solicitar consultoria desportiva personalizada.


Equipamento

Como vários atletas demonstraram ao longo dos anos (p.ex., Abebe Bikila, vencedor descalço da maratona nos Jogos Olímpicos de Roma em 1960 – e de novo vencedor em Tóquio'1964, desta vez calçado), não há nenhuma peça de equipamento que seja estritamente necessária para praticar corrida!


foto encontrada aqui



Quem ao pensar em treinar corrida começa logo a pensar na lista de compras – ténis de corrida, meias de corrida, calções de corrida, t-shirt de corrida de tecido sintético com respiração, boné, óculos escuros desportivos, relógio cronómetro com 100 laps, frequencímetro cardíaco, iPod, garrafinha de água, bebida isotónica, barra energética, gel energético, … – é porque sofreu uma terrível lavagem cerebral por parte das marcas que vendem esses produtos (compreensível, dados os valores astronómicos gastos em publicidade, patrocínios, eventos, etc., para tornar a posse desses produtos uma ambição, uma necessidade, ou mesmo algo essencial à felicidade humana).

O único equipamento que nunca dispensei nos meus treinos (que não quer dizer que seja absolutamente indispensável, como já comentado) foram os ténis de corrida (bom, excepto em alguma corrida na praia). Talvez tenha sofrido a tal lavagem ao cérebro, mas estou convencido de que ténis de corrida são importantes para manter os meus tendões e articulações saudáveis, absorvendo o impacto de cada passada (há quem advogue - p.ex., aqui e aqui - que correr descalço é melhor, mas depois de 33 anos calçado custa-me ponderar essa possibilidade). Quem não faz ideia do que é exactamente um ténis de corrida pode ir a qualquer loja de produtos desportivos e procurar na secção “Corrida” ou perguntar a um dos funcionários da loja. Nos últimos 10+ anos tenho mantido 10 contos (50 Euros) como o meu limite para comprar um novo par de ténis de corrida e tenho conseguido manter-me dentro desse orçamento quase sempre (interessante caso de ausência de inflação, ou de eu reduzir cada vez mais a qualidade – real ou “fabricada” – dos ténis que compro??). Costumo usar ténis Asics, já usei com boas experiências adidas e Reebok, e com más experiências Nike. Nunca experimentei outras marcas bastante usadas por corredores, como Mizuno ou New Balance. (Agradeço comentários se alguém tiver alguma razão a favor ou contra estas marcas – p.ex., escravatura de mão de obra asiática...)

Além dos ténis, costumo correr com relógio (e alguma roupa, é verdade). Quando corro sem relógio acabo por pensar sempre que corri mais do que realmente corri, por isso o relógio é para mim uma importante ferramenta disciplinadora. Uso um relógio cronómetro que permite registar vários tempos (para quando faço treinos de repetições ou para registar ritmos em prova), mas qualquer relógio que marque os minutos serve para disciplinar treinos de corrida contínua. Não é necessário comprar um relógio para começar a correr!

Não uso frequencímetro cardíaco. Conheço várias pessoas que começam a correr e compram logo um aparelho desses. Pior, conheço várias que compram um aparelho desses pensando que é por isso que começarão a correr. Admito que possa ser uma ferramenta útil para treinar de forma um pouco mais científica (procurando manter a pulsação em determinados ritmos que ajudem a melhor desenvolver a forma física para esforços específicos), mas isso é aproveitado provavelmente por menos de 1% dos corredores. Eu não sou um deles, e diria que há uma probabilidade superior a 99% de tu não seres também :)


Motivação e disciplina

Motivação e disciplina - muito mais importantes que o equipamento, e geralmente bem mais difíceis de arranjar. Algumas dicas que costumam funcionar (a maioria por experiência própria):

Objectivos claros: Como em tudo na vida, quando não sei exactamente o que quero atingir (neste caso, talvez correr aquela prova de 5, 10, 21 ou 42 km) é bastante mais improvável que me aplique com determinação a preparar esse objectivo indefinido. Objectivos claros ajudam a acordar de manhã sem questionar aquilo que tenho de fazer, faça sol, chuva ou temporal. Se já estiver inscrito no desafio que quero enfrentar (quanto é um evento organizado) os objectivos estão bem mais claros e o compromisso é bem maior do que se estiver à espera de confirmar que vou mesmo querer participar.

Plano de treinos: Posso ter um objectivo, mas se não tenho um plano concreto para o atingir, é pouco provável que me prepare adequadamente. A existência de um plano de treinos que me diz o que devo correr em cada dia ajuda-me a verificar que vou no bom caminho em direcção ao sucesso, ou a causar problemas de consciência e corrigir a minha trajectória quando não o cumpro. Para mim, o cumprimento semanal do treino costuma ser suficiente – não me preocupa falhar pontualmente um treino ou mudá-lo de dia.

Caderno de treinos: Não basta ter um plano - há que cumpri-lo! Um caderno de treinos (ou folha de treinos, em papel ou no computador), onde registo quanto treinei realmente em cada dia, ajuda-me a verificar o cumprimento (gerando satisfação) ou as baldas ao plano (gerando alarmes, se tivermos escrúpulos). Para os mais fanáticos dos números e análises (como eu), um caderno de treinos proporciona um manancial de dados (especialmente se além de quanto treinámos registarmos como treinámos, como nos sentimos, pulsações, etc.) para nos motivarmos com os nossos feitos ("2000 kms corridos num ano!!") ou para analisarmos como a preparação impactou a forma física, e melhor prepararmos o próximo plano de treinos.

Divulgação pública: Anunciar aos amigos, família, colegas, que decidi aceitar um novo desafio desportivo ajuda muito a comprometer-me com a preparação, para evitar a “vergonha” de afinal não participar ou de ter um resultado péssimo. Passo a contar com essas pessoas para me “cobrarem” o cumprimento do prometido, perguntando como vão os treinos, propondo-se a virem dar apoio no dia da prova, etc.

Grupo de treino: Acordar de manhã cedo para ir correr não costuma ser fácil, mesmo para o atleta mais determinado. Ter o compromisso de encontrar um ou mais companheiros de treino às 7 da manhã para correr costuma ajudar a manter a disciplina e motivação para saltar da cama com garra, sem pensar duas vezes - “vamos lá!” Além de ajudar a começar o treino, os companheiros de treino também ajudam a cumpri-lo na integridade e muitas vezes a cumpri-lo com níveis de esforço físico superiores, mas com percepção de esforço inferior.

Treinador: Além de ajudar a definir mais cientificamente o plano de treinos e analisar a progressão, um treinador de corrida ajuda a manter a disciplina, por querer evitar a “vergonha” de não cumprir o plano, por não querer faltar aos treinos combinados, ou, para os mais materialistas, por não querer desperdiçar o investimento no treinador ou clube. O personal trainer é um caso extremo de treinador dedicado a um indivíduo, nos casos mais competentes activo motivador e disciplinador – boa opção para os mais preguiçosos ou indisciplinados que possam pagar.

Aproveitamento do tempo: Muitas pessoas pensam ao ver um plano de treinos que inclui várias horas de corrida por semana “e onde é que tenho tempo para isso??”. Quem quer, arranja tempo para tudo. No caso da corrida, pode ajudar encontrar sinergias com outras actividades que se possam fazer ao mesmo tempo: meditar, pensar na vida, tomar decisões, ler ou estudar (há quem ouça gravações de livros, ou corra na passadeira com revistas ou livros à frente), escrever (o livro “Ultramarathon Man”, mencionado abaixo, foi “escrito” enquanto o autor corria, falando para um gravador), ouvir música (que pode ser também um factor energizante), deslocar-se (eu em tempos corria do trabalho para casa, trocando uma hora de transportes públicos por uma hora de corrida; muitas vezes corro até um lugar onde tenho de ir, como os correios ou uma loja), etc., etc.

Descanso: Treinar de mais, ou dormir de menos porque precisamos daquelas horas para correr, pode levar ao esgotamento físico e/ou psicológico. É fundamental respeitar os períodos de descanso e dormir adequadamente para manter bons níveis de energia física e psíquica e garantir a motivação para irmos à luta e superarmos os nossos desafios.

Variedade: Até um corridólico como eu reconhece que horas e horas a correr se podem tornar bastante monótonas e aborrecidas. Variedade ajuda a reduzir ou eliminar essa percepção: variando locais, percursos, paisagens, companheiros, tipos de terreno, ritmos de corrida, distância ou tempo corrido, horários e tempo atmosférico (dia, tarde, noite, sol, chuva, neve, tempestade, …), participando em provas como parte da preparação (automaticamente correndo com milhares de companheiros e tendo o apoio de milhares ou milhões de espectadores, mais a motivação de correr mais oficialmente “contra o relógio”).

(Mais ideias são muito bem-vindas nos comentários!)


Para saber mais

(Atenção: Tal como o princípio da especificidade sugere, ler sobre como correr maratonas não ajuda a conseguir corrê-las! Que eu saiba, ainda ninguém descobriu um truque para correr uma maratona sem ter de correr!)

A Internet está cheia de recursos onde se pode aprender mais sobre corrida. Não tenho sites favoritos, por isso sugiro o Google, perguntando, por exemplo, “como correr a primeira maratona” ou, talvez melhor, “how to run my first marathon”.

Também há muitos livros sobre o assunto. Não recomendo nenhum livro de treinos em particular, mas li recentemente dois livros que podem ajudar como inspiração, e o terceiro não li mas pode ser interessante para quem considerar a opção de correr descalço:


Suspeito que a minha mãe, tal como a maioria dos leitores, nunca irá correr uma maratona. Parece-me uma opção muito razoável (sinceramente tenho as minhas dúvidas de que uma maratona seja fisicamente saudável, mas sinto que, somados todos os efeitos, me faz bem). Espero que algumas destas ideias sejam úteis para quem quiser correr, fazer outros desportos, ou enfrentar outros desafios na corrida da vida.

Força aí! Bons treinos!


Nota: As bulicenas recomendam a consulta de um médico previamente ao início de uma actividade física mais intensa e recusam qualquer responsabilidade por efeitos negativos eventualmente imputados a actividades inspiradas por este ou outros textos. Por outro lado, com todo o gosto aceitaremos total responsabilidade pelos efeitos positivos!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sorri de novo!!!

Suspeito que a fonte do conselho sobre sorrir que não consegui recordar na bulicena "Sorri!!!" foi uma newsletter deste site, onde, no meio de um estranho negócio de venda de estranhos produtos, se encontram bons pensamentos sobre felicidade.

Foi lá que encontrei o link para esta curta-metragem que não consegui parar de ver até ao fim e contribuiu para começar o dia com altíssimo astral.



E para tranquilizar leitores chocados com o sorriso da anterior bulicena, aqui fica uma foto que demonstra o meu sério profissionalismo na vida de consultor.



De volta ao trabalho em San Salvador, após 2º lugar na corrida comemorativa do XXVI aniversário da Polícia Nacional da Nicarágua, em Granada (22/Ago/2005)


Sorri!! e a vida sorrirá de volta!