domingo, 8 de novembro de 2009

Timor em mudança

Voltei a Timor-Leste! (depois das visitas em 2003 - exaustivamente documentada nas bulinovas -, 2006 e 2008)

Em 2008, talvez influenciado pelo facto de haver campos de refugiados em vários pontos proeminentes de Dili (ainda efeitos da crise de 2006), pareceu-me que a cidade estava mais ou menos igual a 2003. Os mesmos edifícios em ruínas desde a destruição pós-referendo em 1999, os mesmos buracos nas ruas e passeios, provavelmente já com uma prole digna de uma família timorense, os táxis decrépitos a ameaçar desmantelar-se a qualquer momento enquanto circulavam a 15 km/h...


Mudanças

Desta vez, passado um ano, Dili pareceu-me bastante diferente, em geral para melhor. São certamente impressões superficiais de alguém que só passou uma semana em Timor e não saiu da capital. Mas desejo que as coisas boas que são visíveis a um visitante sejam reflexo de mudanças mais profundas e positivas para os timorenses, que lhes permitam viver vidas mais confortáveis, com mais oportunidades, mais escolhas, mais felizes.

A primeira mudança em que reparei são os táxis amarelos. Não só foram pintados de amarelo como me parece ver menos táxis à beira da morte, alguns até talvez quase novos!



E o trânsito está bastante mais intenso: o número de automóveis deve ter aumentado significativamente. Agora até há filas de trânsito, que abrandam o trânsito dos habituais 20 km/h para uns 10-15 km/h.

Na minha primeira corrida matinal, ao reparar nas mudanças na cidade e no trânsito, não sei por quê, pensei "só faltava ver aqui um BMW!" E uns minutos depois passou por mim um BMW, daqueles com ar de poder ter sido utilizado num James Bond há uns 8 anos. Bastante sobrenatural.

A segunda mudança, evidente para quem anda a pé pela cidade, é a dificuldade em encontrar um buraco onde possa cair! Posso andar muito mais distraído que o habitual sem arriscar a vida a cada dez passos (agora é só a cada 500 passos, talvez?). Não só as estradas estão melhor alcatroadas como foram construídos passeios por toda a cidade.

E a outra mudança muito evidente em que demorei mais a reparar: a cidade está muito mais limpa! E a praia da Areia Branca, ali a 4 kms, também. Explicação: a resolução do Governo declarando sexta-feira de manhã período de limpeza para funcionários públicos de todos os níveis.



No ano passado já existiam alguns semáforos, mas este ano pareceram-me muitos mais. Ultra-modernos, até com contagem decrescente para mudança de cor.



Muitos edifícios foram (ou estão a ser) construídos ou renovados. Até um moderno centro comercial está a ser construído na estrada de Comoro (segundo este artigo, no valor de $30 milhões... quantos anos vai demorar a dar retorno??).

Palacio Presidencial

Igreja de Motael

Secretaria de Estado da Juventude e Desporto

Procuradoria Geral da República

Casa Europa

Banco australiano ANZ



Parques que no ano passado eram campos de refugiados foram arranjados e agora são frequentados para lazer dos dilianos.



A Timor Telecom domina o mercado publicitário, com razoável poluição visual da cidade. As boas notícias são que uma ligação Internet de banda larga já só custa $49 por mês.



No desporto, em Agosto aconteceu a primeira Volta a Timor. Em bicicleta de montanha, claro.



E a federação de futebol em breve vai inaugurar a FIFA House - um dos edifícios mais vistosos da cidade.

FIFA House - Campo da Democracia


Parece-me que há bastantes mais restaurantes de variadas gastronomias. Neste momento é possível experimentar em Dili, pelo menos, comida timorense, indonésia, portuguesa, brasileira, chinesa, tailandesa, vietnamita, japonesa... Até abriu mais um estabelecimento de fast food (em 2006 já havia um restaurante de hambúrgueres) quase com aspecto de McDonald's.



Outras coisas não mudam

O Hotel Timor continua a ser o centro da actividade social e provavelmente política da cidade e do país. Passei lá um dia à hora do almoço e encontrei, sem qualquer combinação, provavelmente todos os meus conhecidos (não timorenses) num raio de 2000 km: cinco pessoas, uma das quais eu pensava que estava em Adis Abeba e não em Dili!

Os governantes continuam muito acessíveis. Por trabalho reuni com o Secretário de Estado da Juventude e Desporto e com o Presidente da República. Também encontrei o Primeiro-Ministro, brincalhão e informal como sempre, na cerimónia de abertura da taça do 18º aniversário do 12 de Novembro (acho um pouco estranho isto de comemorar datas de massacres, mas enfim...), onde ele até jogou futebol.



O catolicismo continua forte. No Dia de Finados (feriado em Timor) não deve haver quase nenhum timorense que não vá ao cemitério levar flores e rezar pelos antepassados, por vezes em distritos a várias horas de viagem. Pelo menos todos aqueles com quem falei tinham ido ou iriam mais tarde, e durante a minha corrida matinal a zona em volta do famoso Cemitério de Santa Cruz parecia tão activa - mas por melhores razões - como nas imagens do 12/Nov/91.


Reflexões

É impossível passar por Timor (ou outro país em semelhante grau de desenvolvimento económico) e não reflectir sobre como se pode viver num país em que há tão pouco. Em que quase nada pode ser dado por garantido. E comparar com a forma como se vive noutros países, em que ao termos quase tudo reclamamos do quase nada que não temos. Esquecemos que todo este conforto não existe por termos nascido com direitos vitalícios especiais. Esquecemos que a água e a electricidade vêm de algum lugar. Que as frutas e legumes não nascem no supermercado. Que o carro e o telemóvel não são apêndices que crescem em quase todos os seres humanos adultos. Que o lixo não se evapora do mundo quando o deitamos no caixote. Em Timor parece mais fácil dar valor a coisas tão simples como um caixote do lixo. Água para matar a sede. Uma brisa para aliviar o calor. Estar vivo.

Também não posso deixar de recordar os muitos anos em que a situação de Timor representava para mim a injustiça do mundo, a opressão dos mais fracos, a causa perante a qual ninguém poderia ficar indiferente. E especialmente recordo o mês de Setembro de 1999, há 10 anos, quando enquanto tentava acabar o meu trabalho final de curso ia vendo as terríveis notícias que chegavam aqui de tão longe. E os portugueses activos como nunca (ultimamente consta que só saem à rua durante Europeus ou Mundiais de futebol), entre concentrações, cordões humanos, flores na água, roupas brancas, faxes, e-mails, destaques em todos os meios de comunicação... Todos por Timor. [aqui uma excelente compilação dos acontecimentos desse mês]

Por que será que parece ser preciso um Timor para nos importarmos com alguma coisa?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Alegre volta ao mundo dançando


Where the Hell is Matt



Obrigado Matt! Óptimas energias! Feliz Natal!!


[Mais sobre o Matt no site oficial e em especial no about e nas FAQ.]

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Morte ao Pai Natal!

Há alguns anos que tenho o privilégio de responder "Nada" quando alguém próximo pergunta o que é que preciso (para o Natal, aniversário, ou alguma outra ocasião em que se convencionou oferecer coisas). Agradeço a recorrente pergunta, apesar de por vezes demasiado insistente, porque me faz sempre ficar consciente da minha privilegiada situação num mundo em que tanta gente vive com tantas dificuldades.

Na verdade, a minha resposta não pode ser tomada de forma absoluta: tenho de admitir que preciso de oxigénio, água e alimentos para viver. E não sei o que é viver sem uma casa, um abrigo. Nem sem uma razoável liberdade. E saúde também dá muito jeito. Ou os respectivos cuidados na falta dela. Pensar como não me posso queixar da falta de nada disto (nem alguma vez pude em 33 anos de vida) aviva a noção de vida privilegiada. E faz-me pensar em quem não tem a mesma sorte. Sorte mesmo: não posso reclamar qualquer mérito por ter nascido nesta família, onde e quando nasci, por ter estudado onde estudei, trabalhado onde trabalhei... Claro que tive de fazer algumas opções ao longo da vida, mas tive a sorte de as poder fazer.

Tudo isto para, saindo um pouco da linha positiva e amigável que espero que as bulicenas costumem seguir*, declarar

morte ao Pai Natal! :)

quadro: Robert Cenedella


O Pai Natal é a metáfora para esse estranho costume das prendas natalícias materiais e materialistas. A grande maioria das pessoas a quem damos alguma coisa não precisa de coisa (material) nenhuma. A maioria das coisas que damos (excepto os mais criativos!) provavelmente não tem significado especial para quem recebe. (Nem para quem dá?) Muitas vezes são até opressivas, gerando um incómodo sentimento de reciprocidade "se ele me deu isto, agora tenho de retribuir". "Alimentam a economia", justificam alguns. Que raios é suposto isso querer dizer?? Qualquer compra, por mais estúpida que seja, "alimenta a economia". Isso faz dela uma compra boa?? Não, antes pelo contrário: uma compra estúpida alimenta estupidamente a economia. Gera desperdício, abuso desnecessário dos recursos do planeta.

imagem: Urban Army


Por solidariedade pelos desprivilegiados, por ecologia, por vergonha na cara, proponho aniquilar o Pai Natal. Ou simplesmente esquecê-lo. Ou transformá-lo? Por quê pedir-lhe egoisticamente coisas para mim? Por que não pedir a mim próprio para ajudar a quem precisa? E responder ao pedido.

Como de costume, nenhum leitor das bulicenas conte com prendas materiais da minha parte neste Natal (nem em qualquer outro). Espero que possam contar com a minha amizade e boas energias. E vou tentar dar prendas a quem precise mais, por exemplo fazendo um donativo a organizações que andam a ajudar as vítimas das recentes catástrofes naturais por estes lados: terramoto em Padang, inundações em Manila, maremoto em Samoa. Se alguém tiver uma vontade incontrolável de me oferecer alguma coisa, ofereçam-me por favor uma ajuda a quem precisa!

Feliz Natal!


*Na verdade não é uma declaração tão agressiva assim, pois consta que o senhor das barbas brancas vestido de vermelho não existe. Para quem acredita, as boas notícias são que o Pai Natal foi preso no ano passado. Talvez este ano me safe finalmente de receber prendas?

domingo, 11 de outubro de 2009

5 C's

Os 5 C's são uma forma popular de medir o sucesso de um homem (não só o potencial de atrair mulheres) em Singapura: cash (dinheiro, ou carteira), carro, condomínio, cartão de crédito e country club. Às vezes ouço mencionar um sexto C também relevante: carreira.

A Orchard Road ao domingo é uma excelente amostra deste modelo de sociedade materialista em funcionamento. À semelhança da zona de Belém em Lisboa (pelo menos na minha infância - hoje talvez o Colombo tenha tomado esse lugar?) ou do parque Ibirapuera em São Paulo (mais para o popular), a Orchard Road é destino dominical para massas de gente de todos os estratos socioeconómicos. Com raras excepções, cada prédio desta rua é um centro comercial (incluindo os primeiros andares de vários hotéis). Outdoors, montras, ecrãs de vídeo gigantes, luzes, amostras, folhetos, promoções... Tudo chama a atenção para marcas de roupa e acessórios, perfumes, e outras inutilidades. Das acessíveis às "estpssoaltássapassar!". Comprar é um dos dois desportos nacionais de Singapura (logo a seguir a comer). Devem acontecer milhões de transacções em cash e cartão de crédito num domingo na Orchard Road. Quem não está a comprar está a pensar no que acabou de comprar, no que vai comprar, ou no que gostaria de comprar. Quem tem carro (não são muitos em Singapura) aproveita para desfilar o seu símbolo de status e capacidade financeira. Há quem chegue ao ridículo de possuir um Ferrari ou um Lamborghini neste país com menos de 50 km de uma ponta à outra e um total de 160 km de auto-estradas (com limite de velocidade de 90 km/h). O hotel Hilton na Orchard Road parece ponto de encontro habitual para estes estranhos seres.



Quem quererá ser um sucesso numa sociedade assim?

Orgulhosamente, sou um completo falhado:
  • Até tenho umas poupanças, mas a maior parte está em depósitos não tão líquidos numa conta no Brasil à qual não tenho tão fácil acesso, portanto não se pode dizer que eu tenha muito cash

  • Nunca tive carro na vida, e tenciono nunca vir a ter (especialmente em Singapura - ilha de 700 km2 bem servida por excelentes transportes públicos, à qual consigo dar a volta em bicicleta em perto de 4 horas)

  • Vivo num HDB - prédio de "habitação social" singapurense - e não num condomínio (construção privada com mais luxos, tipicamente incluindo piscina, courts de ténis, ginásio, garagem...)

  • Devido à falta de rendimentos estáveis, não sou elegível para obter um cartão de crédito em Singapura (a não ser fazendo um depósito de segurança de 10.000 Euros)

  • Continuo a correr e pedalar pelas ruas e estradas de Singapura, e a utilizar as excelentes piscinas públicas - não sou sócio de nenhum ginásio e muito menos de um country club

  • Reformado aos 32... é difícil argumentar que tenho algo que se possa chamar uma carreira... e sinceramente nunca me ocorreu querer ter uma

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Eficiência singapurense

Brrr brrr brrr, toca o telefone.

- Alô?

- Boa tarde. Senhor Da Fonseca?

- Sim, sou eu...

- Daqui fala do seu banco. Você perdeu o seu cartão bancário.

- Ah sim? [enquanto levo a mão ao bolso a verificar] Hmmm... é possível...

- Por motivos de segurança acabamos de cancelar o cartão e vamos cobrar S$5 pela perda. Estou a ligar para confirmar alguns dados para emitirmos um novo cartão...

E antes que eu conseguisse processar a notícia estava tudo resolvido.