quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Moda forreta

“Primo, há quantos Natais te vejo com a mesma roupa??”. Foi a primeira coisa que ouvi ao entrar na sala onde estavam todos os tios e primos no tradicional encontro familiar de Natal (sem qualquer tom de censura, apenas curiosidade – a minha família é amigável!) .

Enquanto eu pensava se seria verdade que todos os Natais trazia exactamente a mesma roupa, a minha prima, simpaticamente, tentou arranjar uma explicação para me safar: “Ou tu tens lá em casa um monte de roupa igual?”

“Não... é capaz de ser mesmo a mesma roupa”, respondi. “É que parte da minha roupa está agora nos EUA, então acabo por usar a que tenho em Lisboa, que não é tanta.”

Na verdade até tenho roupa a mais em Lisboa, especialmente t-shirts. Quando passo por Lisboa com mais tempo tento fazer uma nova filtragem e escolher roupa para doar. Mas não há maneira de esvaziar o armário. Para habitante de países “ricos” (que não é a referência ideal para muitas medidas), nunca fui pessoa de ter nem de comprar imensa roupa, mas sempre tive muito mais roupa do que a realmente necessária.

Ao viajar pelo mundo tento levar o mínimo de roupa possível, de modo a aliviar a bagagem. Além disso, o meu forretismo inato leva-me a seguir o lema “não compres hoje o que podes comprar amanhã”. Estes dois factores resultam num “stock” de roupas (quanta roupa tenho em cada momento) relativamente pequeno e num “fluxo” de roupas (quanta roupa “passa por mim” ao longo do tempo, ou quanta roupa “consumo”) muito reduzido. Em linguagem contabilística, roupa é para mim um “investimento” (porque dura bastantes anos e portanto é depreciada ao longo do tempo) e não uma “despesa” (não entra simplesmente nas contas do ano como se fosse consumida num período curto).

Até pensava que o meu stock de roupa era razoavelmente pequeno, mas nada como fazer um inventário exacto para identificar oportunidades de optimização. Neste momento tenho comigo nos EUA:

para uso geral:
  • 13 t-shirts (4 de manga comprida)

  • 2 camisolas

  • 3 calças de sarja/jeans

  • 1 calções

  • 8 pares de meias

  • 6 cuecas

  • 2 calções de natação

  • 1 par de ténis para andar (ténis de corrida reformados)

  • 1 par de chinelos
para correr:
  • 2 pares de ténis de corrida

  • 6 t-shirts

  • 3 calções

  • 1 calças

  • 8 pares de meias

  • 2 impermeáveis

  • 2 pares de luvas
para o frio:
  • 1 casaco

  • 2 fleeces

  • 1 par de luvas

  • 1 cachecol

  • 1 gorro

  • 1 calças de pijama
roupa formal:
  • 2 fatos (calças + casaco)

  • 1 calças

  • 6 camisas

  • 5 gravatas

  • 2 pulôveres

  • 1 par de sapatos

À primeira vista, sem ser demasiado extremo, poderia reduzir alguma roupa se decidisse, por exemplo:
  • Deixar de frequentar ambientes formais, cortando a secção “roupa formal” (claro que neste momento, como reformado, não é algo muito necessário, mas por enquanto prefiro manter a opção aberta)

  • Deixar de viajar, permanecendo num país quente ou num país frio, para deixar de carregar roupa para ambos os climas (em geral evito países frios, o que elimina praticamente a secção “para o frio”)

  • Reduzir o número de t-shirts (mesmo se estivesse num país mais quente, poderia facilmente arranjar-me com metade ou menos)

  • Deixar de correr, e cortar o capítulo “para correr” (não é uma opção!)

  • Reduzir o equipamento de corrida (posso facilmente reduzir 1 calções, 3 t-shirts, 4 pares de meias e 1 impermeável; e se não estivesse num país frio dispensaria o outro impermeável, as calças e as luvas; se necessário, poderia também usar só 1 par de ténis)

Os três anos que passei com base no Brasil exemplificam bem o meu “forretismo” em relação a roupa e calçado, que resulta no baixo fluxo (consumo) de roupas. Durante esse período comprei:
  • 1 calças jeans

  • 2 camisas (para trabalhar)

  • 1 calções de natação

  • 4 ou 5 pares de ténis de corrida (esta é a única peça que se pode dizer que eu verdadeiramente “consumo”)

Além disso, como prendas ou ofertas de provas desportivas, recebi algumas t-shirts, 1 calções de corrida e 1 calções de natação.

Como manter um consumo reduzido de roupa? Simples: usando a roupa enquanto ela dura. Por exemplo, ainda hoje uso uma t-shirt que faz 15 anos em 2009 (de uma prova de pentatlo em 1994, daí que eu saiba a idade com precisão). Os meus famosos calções de corrida “vermelhos” devem ter uma idade próxima. Ainda uso uns calções de praia que a minha mãe diz que são de quando eu tinha 8 anos (acho que é exagero, mas talvez tenham uns 20 anos). Tenho dois calções de natação não para alternar o seu uso mas para usá-los ao mesmo tempo, para que as transparências de um sejam tapadas pela opacidade do outro. Durante um ano usei uns ténis com a sola furada, que me obrigava a verificar a probabilidade de chuva antes de decidir calçá-los. Os únicos sapatos que usei para trabalhar durante os três anos no Brasil (todos os dias exactamente o mesmo par de sapatos) foram comprados em 2002, e só definitivamente(?) reformados este Natal (apesar de, confesso, já andar a achar que não estavam em óptimas condições nos últimos 2 anos, mas... para quê comprar hoje o que posso comprar amanhã?). Os dois fatos que uso em ambientes formais foram comprados quando emigrei para o Brasil, em 2004, e estão longe da reforma. Uma das minhas camisas de trabalho furou no cotovelo, por isso tive de começar a usá-la apenas com as mangas arregaçadas. E adoro usar meias rotas – afinal, ninguém as vê e não incomodam nada, portanto cumprem a sua função!


Corrida de aventura em Caraguatatuba (Brasil) - as minhas calças neste tipo de provas (que custaram US$2 no Exército de Salvação) estavam em tal estado que muitas vezes pensavam que tinha sofrido um acidente: "Que aconteceu com você, cara?!"


A moda foi inventada exactamente pelos desenhadores, fabricantes e vendedores de roupa e calçado para estimular as pessoas a comprarem mais do que realmente precisam. (Seguramente, as motivações intelectuais, estéticas e artísticas são importantes, mas a oportunidade de lucro não deixará de influenciar fortemente, mesmo que inconscientemente em alguns casos, as decisões da “indústria” da moda.) Por óbvio interesse destes grupos (e dos grupos socioeconómicos de elevado poder aquisitivo, que se conseguem distinguir pela roupa, ostracizando quem não tem a mesma capacidade de desperdício), comportamentos práticos, poupados, eficientes, que aproveitam bem os recursos do mundo foram considerados muitas vezes deselegantes, estranhos, ilógicos, impróprios, censuráveis, ofensivos, imorais e até ilegais!
  • Usar todos os dias a mesma roupa (é improvável que seja necessário trocar por questões higiénicas, a não ser para peças íntimas e quando faz muito calor)

  • Usar este ano a roupa do ano passado (é improvável que não esteja em bom estado)

  • Repetir a roupa do último casamento (qual é o problema?!?)

  • Usar roupa de verão durante o inverno (mesmo que as temperaturas o recomendem)

  • Usar roupa “informal” em ambientes “formais”, ou vice-versa (porque é que uma roupa há-de ser “melhor” que a outra?)

  • Não usar roupa nenhuma em público (se não é imoral nem ilegal para todos os outros animais, porque há-de ser para os humanos?)

Quem seria o homem ou a mulher no seu perfeito juízo que formularia tais convenções repressivas e desperdiçadoras?? (Não incluo nesta classificação convenções práticas, úteis, bem pensadas, como por exemplo o uso de batas e outras garantias de higiene por médicos e cozinheiros, ou peças protectoras por quem trabalha em ambientes de risco, como fábricas ou obras.)

Confesso-me totalmente formatado por 32 anos de viver vestido em sociedade, já sem qualquer ambição de gostar da ideia de andar nu em público, por muito calor que faça (senhoras idosas, podem continuar a sair à rua descansadas, sem risco de ataque cardíaco!). Decidi aceitar algumas outras convenções, embora discorde delas, por considerá-las um preço baixo para entrar em alguns jogos que decidi que quero jogar. Por exemplo, nunca me aventurei a ir de calções e t-shirt a reuniões com os meus clientes de consultoria, apesar de desgostar particularmente de roupa formal: dá trabalho a transportar, é cara, soturna e complicada de lavar (a única vantagem é que, pelo menos para homens, acaba por ser um uniforme que ajuda a não dedicar tempo nenhum a pensar no que vestir). Por vezes, para descontrair em algum ambiente demasiado sério, ponho-me a imaginar as pessoas à volta da mesa como macacos de fato e gravata (a la Planeta dos Macacos).

Também costumo ir relativamente “bem vestido” (de camisa, em vez de t-shirt, e às vezes de fato) a cerimónias como casamentos e baptizados, porque – quem diria – é possível que o meu amigo ou familiar, por muito próximo que seja, fique ofendido se eu for mais relaxado! Incrível como podemos colocar a convenção totalmente descabida do que “fica bem” acima do bem-estar, do conforto, da descontracção do outro! Será um sinal de amor, de amizade?

Que saudades dos bons velhos tempos em que passava o verão de calções, incluindo aulas e exames no Técnico, e do ano do MBA, de calções no calor de Singapura. Felizmente, em muitos estabelecimentos de ensino ainda existe algum sentido prático e abertura às preferências de cada um (apesar de haver quem considere isso um sinal de desleixo, bagunça, indisciplina, anarquia, e até de má qualidade de ensino e/ou aprendizagem).

Não tenciono lutar activamente contra este sistema repressivo (sinto que não é aí que devo investir as minhas energias). Quem sabe qualquer dia o Greenpeace começa a manifestar-se à porta dos grandes festivais internacionais de moda para desafiar a ditadura dos armanis, valentinos, chanéis, dolces e gabannas deste mundo. Ou talvez oiçamos as Nações Unidas decretarem “o fim da moda” com um novo artigo na Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todo o ser humano tem direito a vestir ou não vestir o que entender, onde e quando quiser.”

Até lá, dentro do possível, manterei a minha moda forreta e não deixarei a minha auto-estima e felicidade reféns da moda do desperdício, das aparências, das convenções irracionais, procurando sempre aceitar as opções de cada um - as mais e as menos convencionais.

7 comentários:

  1. Primo,

    1 - Por favor não does a roupa do dia de Natal. Já é um clássico ver-te com aquelas calças castanhas, camisa de quadrados e camisola Sidney azul escura de decote redondo. O nosso Natal nunca mais seria o mesmo!

    2 - Quanto às meias rotas, sugiro-te a opção do tio João do Porto (sobrepor várias meia, com buracos desencontrados).

    3 - perante esta Bulicena, resta-me dizer: pobre Sílvia....

    Bjs ó fonas
    Prima Xica

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  2. Ola',


    Acho que tens um stock muito decente, tens mais roupa e sapatos que eu.
    Mas eu, em casa, gosto mesmo de andar vestida com uma mendiga, e' roupa velha que nao vale mesmo a pena oferecer a pobre, porque ate' e' ofensivo oferecer alguma coisa tal velha, mas e' super confortavel e eu lembro-me bem de a ver em melhores condicoes.

    Gosto muito de comprar coisas novas, mas para as criancas, nao para mim.

    Gosto muito dos teus calcoes, daqueles que tem fios pendurados e se estao a desfazer, sao a tua proteccao.
    Qualquer outra pessoa a correr em sitios que tu tens corrido ja' tinha sido assaltada. Mas tu com aqueles salcoes ficas com um ar tao pobre que ninguem lhe passa pela cabeca que esta' a ver "um consultor de sucesso e um pilar da nossa sociedade". Gostaste ;) ?
    Fica bem.
    Adoro os calcoes.
    Daisy

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  3. Eta que e' forreta!!!

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  4. Obrigado pelos comentários, primas!

    Daisy: fico admirado pela tua moda pobre - parabéns!! E os meus calções "vermelhos" agradecem o apoio. Ainda existem e só serão reformados quando furarem de forma irreversível (há uns 2 anos que ameaçam fazê-lo).

    Xica: agora que fiquei consciente deste fenómeno, esforçar-me-ei por manter a tradição - o Natal continuará a ser o Natal! (esqueceste de mencionar os sapatos de vela verdes azeitona)

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  5. Nuno,
    Não abandones esses famosos calções "cor-de-rosa" que já várias vezes tentámos substituir...
    Bjs, Rita

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  6. Olá!

    Só agora aqui cheguei e foi só rir!

    Nuno, estamos contigo!

    B & A,

    Um mano

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